Feliz pra cachorro: os Cínicos no pet shop

File:Jean-Léon Gérôme - Diogenes - Walters 37131.jpg - Wikimedia Commons

(Diógenes, de Jean-Léon Gérôme )

Uma das coisas mais humilhantes é ver um cachorro de roupinha, banho tomado, submisso aos caprichos humanos. A impressão que tenho é que sua dignidade foi tosada, assim como a natureza de seus pelos.

Sonho com o dia da libertação canina, movimento autêntico em que os cachorros do mundo inteiro se unirão em torno da desobediência humana. Nesse fatídico dia, eles abrirão as portas dos apartamentos, latirão raivosos contra seus donos e invadirão os pet shops, se esbaldando com as iguarias que o sistema oferece em troca da servidão animal.

Latirão em uníssono: abaixo aos capitalistas que lucram com a vida canina! Convocarão seus iguais para urinarem em todos os tapetes do mundo. Nesse dia histórico, o poste não será o limite!

Por isso que a frase “eu tô feliz pra cachorro” perdeu o sentido. Não é só uma questão de geração, de idade simples anacronismo. É porque ela sofreu uma desvirtuação filosófico-semântica. Chego a pensar que não existe mais uma autêntica vida de cão. O problema é que (por motivos psicológicos que não comentarei agora) há uma tentativa de humanizar os bichinhos. E a sacanagem por detrás disso tudo é o fato de que fazemos isso já sabendo que o processo de humanização, entre nós, deu muito errado.

Caro leitor e cara leitora, pode ser que você não perceba, mas a frase em questão já foi revestida da mais fina filosofia. Para os Cínicos, filósofos  da antiguidade grega, a felicidade e a verdade eram alcançadas apenas quando exercitávamos o desapego pelos bens materiais, desprezando qualquer tipo de opressão cultural. Apenas para aumentar nosso repertório: o termo Cinismo tem origem no grego kynismós, significando “viver como um cão”, traduzindo a forma de vida dos adeptos dessa filosofia.

Sei que hoje está muito na moda falar dos Estoicos, de gurus espirituais ao pessoal da psicologia positiva (aliás, duas classes que possuem o mesmo objetivo: levar sua grana) todos usam essa corrente filosófica como fundamentação. Sabe por quê? Ela prega um desapego mais higienizado, mais bonitinho, mais cool. Eles também são legais, mas o desapego proposto pelos cínicos é muito mais raiz!

Diógenes, um dos filósofos mais famosos da antiguidade, vivia dentro de um barril, vida loka, estilo Chaves. Não possuía nada, nem banheiro. Todas suas necessidades, tanto fisiológicas quanto espirituais, eram sanadas pela própria natureza. Conta-se que ela adorava ir para a Ágora com uma lanterna acesa, mesmo durante o dia, questionando: é aqui que encontrarei homens felizes e verdadeiros.

Dizem que o próprio imperador romano foi ter um colóquio com ele, pois tinha fama de ser um grande sábio e conselheiro. Ao final da conversa, Alexandre teria ficado tão satisfeito que propôs, como pagamento, qualquer coisa que ele pedisse, até metade do império. Nosso filósofo teria feito apenas um pedido: ô do Império, só quero uma coisa: que você saia da frente do meu sol!

Conforme vimos, nosso herói acreditava que a verdadeira felicidade consistia em uma vida de cão, sem compromissos penosos ou entediantes.  Qualquer coisa a mais já seria considerada exagero, significando uma preocupação desnecessária. Portanto, ser feliz era um estado de espírito que tinha mais haver com a diminuição da preocupação do que com o aumento dos prazeres.

Tenho certeza de que se Diógenes vivesse hoje, ele mudaria de opinião. Não porque desacreditaria de sua própria corrente filosófica, mas porque não a relacionaria com o cachorro-empresário que a vida moderna construiu.

Com agenda, compromissos, banho,  tosa, atendimento psiquiátrico, deprimido após devorar um prato de ração vegetariana e confinado a quatro paredes decoradas por algum arquiteto famoso, talvez nosso filósofo mudasse sua concepção para: não seja infeliz como um cachorro doméstico, não se deixe aprisionar em troca de um pouco de comida e carinho.

5 thoughts to “Feliz pra cachorro: os Cínicos no pet shop”

  1. Lembrei que nas ruas os cachorros , ao menos nas grandes cidades, não estão mais felizes e sim,doentes , sozinhos, passando fome ,frio , sede e sendo negligenciados por quem os cativou e abandonou a própria sorte.

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