300 anos de Minas: e se Noé fosse caipira?

O ano de 2020 não foi para amadores. Vivê-lo e chegar até aqui, em dezembro, é uma grande vitória. No Brasil ainda! É muito mais que um teste de sobrevivência, é quase uma prova de imortalidade.

Assim, desviando-me do conselho nietzschiano, penso: quando não suportamos o real, o melhor é criar um ideal mesmo. E pra ser mais direito: quando o princípio de realidade quer te pegar por trás o negócio é fantasiar.

Em um dia daqueles, comuns, debaixo do chuveiro, cheguei a pensar: e se estivéssemos mesmo no fim. E se Deus, seja o cristão ou o do calendário Maia, tenha ficado enfastiado das nossas peripécias e decidiu dar um basta nessa pouca vergonha toda. Como fantasia é uma coisa que não tem limite, lógico que cogitei a possibilidade de construir minha própria Arca de Noé, ou simplesmente uma canoa, porque, venhamos e convenhamos, a salvação sempre é algo individual, aprendemos isso desde a caverna de Platão. O importante é saber o que levar (guardar).

Lógico que não repetiria o erro de levar os bichos. Por mais bonitinhos que sejam, não seria fácil explicar ao soberano que matamos quase todos os animais e que, pela nossa burrice e ganância, colocamos em extinção as espécies mais belas. Sobrando por aqui só as formigas mesmo. Esse bicho comunista que adora viver do trabalho alheio. Basta plantar uma horta que lá aparecem elas… Unidas, em comunidade, carregando o esforço do outro como se fosse seu. Desculpem-me o desabafo, mas desde que conheci as fábulas de Esopo tenho certa ojeriza às formigas. Além do mais, esse negócio de colocar macho e fêmea na arca não cola mais. Não entrarei em questões de gênero, mas Noé precisa ampliar a ideia de casal.

Bem… comecei a pensar na lista, iniciando pelo veículo. Nada de arca! Ia escolher uma Kombi, ou quem sabe uma Caravan. Esse negócio de transporte marítimo não daria muito certo não, afinal de contas sou mineiro! A questão não é estar longe do mar, mas simplesmente não precisar dele. Não é Minas que não tem mar, é o mar que não tem Minas. Além dos mais, viu só? Para castigar a humanidade Deus mandou um “dilúvio”, mas quando quis ficar mais perto do sagrado ele subiu a montanha. Fica a dica!

Pois bem. Nessa mesma toada, teria que escolher aquilo que é fundamental para começar uma nova civilização. Portanto, não poderia levar nada supérfluo. Comecei a pensar. Primeira coisa: um rádio de pilha. Dispenso explicações. Quem nunca ouviu um rádio de pilha, à noite, debaixo do travesseiro, nem pode ser chamado de gente. Também seria necessária uma boa garrafa de cachaça, daquelas que encontramos sem querer, em uma viagem à Maquiné, parando em algum lugar para comer pão com linguiça. Olhamos no balcão e não damos nada por ela. Então, de repente, o milagre se faz. Experimentamos o néctar dos deuses. É impossível pensar na civilização sem pinga.

Roupas? Levaria a camisa do meu time. Mas aquelas da década de 80, do tempo em que patrocinador não ocupava o uniforme inteiro, que hoje em dia mais se parece com um outdoor ambulante. Falando em futebol, lógico que levaria um estrelão e uma coleção de jogo de botão. Não importa a idade, jogo de botão deveria ser tombado como Patrimônio Imaterial. Poderíamos levar também Reinaldo e Tostão, para recomeçar um campeonato na nova humanidade. Seria bom ver o futebol de verdade, aquele autêntico, jogado com amor e identificação pelo time. Ninguém mais lembraria do futebol de instagram mesmo. Seria a reinauguração do futebol raiz.

Levaria também um canivete. Essa invenção nos possibilitou chegar até aqui. Cortando a casca da laranja, ajudou a alimentar as crianças. Tirando bicho de pé, nos auxiliou a combater as investidas da natureza. Abrindo fechaduras à noite, ajudou aos homens a seguir o mandamento bíblico: crescei-vos e multiplicai-vos! Não vou me delongar, mas muitos não estariam aqui se não fosse a multifuncionalidade do canivete roceiro, usado por nossos pais e avôs.

É importante não se esquecer do torresmo, se for “o de barriga melhor ainda”. Mesmo nos dias mais tristes da humanidade, o torresmo figurou como arma letal contra a infelicidade. Experimentar um bom torresmo, saido do fogão à lenha, é como adentrar na eternidade reservada aos santos. Capaz de enobrecer as almas mais impuras, um bom torresmo é receita infalível frente aos males do mundo.

Para terminar, colocaria a viola entre os objetos mais importantes. Nas noites de lua cheia ela nos faria lembrar de histórias, causos e lendas de tempos antigos, nos fazendo rir e chorar, com seu som límpido e adocicado.

Enfim, mas você deve estar se perguntado: mas só mineiro viveria nessa nova civilização? Olha… Não fazer desfeita, mas dizem que o salvador só usou pão sem fermento na Santa Ceia porque ainda não tinha descoberto o pão de queijo. Você pensa diferente? Paciência, uai…

One thought to “300 anos de Minas: e se Noé fosse caipira?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *