Só os lerdos são felizes!

Uma das coisas mais difíceis no mundo é ver um lerdo infeliz. Chego a pensar que lerdos não ficam insatisfeitos ou tampouco reclamam da vida. Pelo contrário, sempre achei que gente lerda caminha como se o próprio passo não importasse. Eles são aqueles sujeitos que viajam apenas com a mala de mão. São leves, mas não são levianos.

Por isso que esse tipo humano não ocupa sua vida com aplicação de golpes financeiros, falcatruas ou brigas na esquina. Também não se importam com cargos e salários, pois não almejam nada mais do que eles já possuem. Lerdos são o que são.

Todo mundo já teve algum amigo lerdo e sabe como isso funciona. Ou você, que lê esse texto agora, é a própria lerdeza em pessoa e, justamente por isso, por ser batizado com a santa incapacidade de perceber a si mesmo, ainda não sacou sua verdadeira essência. Não fique chateado, pois essa é uma competência salvadora, reservada aos raros. Somente aqueles que não se preocupam em sair de casa com o tênis trocado sabem o que é uma vida autêntica. Todo lerdo é um sujeito que encontra em si a causa de sua própria felicidade. Por isso que ele nunca deseja ser quem ele não é. Quer contentamento maior que esse?

O lerdo é uma espécie de vazio que caminha pela terra. Um nada ambulante que é atravessado pelo vento, pelos pássaros, pelos sons e pela própria força da vida. Com o tempo, compreendi que ser lerdo é lutar diariamente contra a infelicidade, sentimento introduzido no mundo por gente focada, aquele tipo de pessoa que sabe o que quer e que te incentiva a sair da zona de conforto. Caim tinha foco, Abel não. Aquele viveu mais que o irmão, mas esse último teve uma existência mais feliz. Pense em todos FDP que você conhece. Tenho certeza: nenhum deles é lerdo. Essa é uma característica reservada aos santos.

Não é à toa que Deus colocou Adão e Eva para viverem de lerdeza no paraíso. Até que um dia apareceu a maldita cobra, praticando crossfit em uma árvore depois de participar em uma formação intensiva de coaching para casais. Sem nenhum pudor ela disse: Ooou! Vocês dois aí! Tão lerdos que nem perceberam que estavam sem roupa! Não dá para viver assim não, hein? Esse ócio é coisa de gente preguiçosa que não quer vivenciar um novo life style, onde está o foco no resultado?! Daí em diante tudo lascou… Eles abandonaram a sagrada lerdeza e cá estamos, distantes do éden e entregues à selva de pedras.

Por isso que todo médico deveria receitar uma boa dose de lerdeza como fármaco diário. Creio que curaria até alguns casos graves de tédio, tristeza depressão. Professores assumiriam a missão de ensinar às crianças a melhor forma de acionar o “botão da lerdeza” toda vez que o mundo adulto colocasse, de forma irresponsável, suas frustrações, culpas e demais violências nas costas dos pequenos.  Os filósofos deveriam pleiteá-la como uma virtude superior, mãe de todas as outras, sendo mais útil que o equilíbrio aristotélico. E os psicólogos aprenderiam a considerar que a lerdeza, como um autêntico traço edípico, tem a ver não com o desejo incestuoso, mas simplesmente com a preguiça saudável de enfrentar o pai.

Só a lerdeza salvará a humanidade!

4 thoughts to “Só os lerdos são felizes!”

  1. Acompanho e adoro seus textos. Meu grande amigo Xico Sá defendeu a ressaca como forma de pacificação do
    Mundo. Quem faria uma guerra de ressaca. Grande abraço e espero que siga por aqui!

  2. Diferente da PREGUIÇA que podemos considerar como a aversão ao trabalho e uma ode a negligência, e a indolência, a LERDEZA é só falta de agilidade, ainda assim, como a tartaruga, os lerdos podem chegar longe.

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