Elogio da Loucura: uma homenagem ao Lisca

Uma das obras mais importantes do pensamento político ocidental passa despercebida diante dos nossos olhos: Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdão. Lançado em Paris, durante o Renascimento, o livro é um deleite. Indico para esses dias pandêmicos. Seus capítulos apresentam uma entidade que, tecendo louvores a si mesmo, coloca-se entre dois grandes importantes movimentos da época: o catolicismo e o protestantismo. Um detalhe muito importante: Erasmo era um clérigo, um cristão.

Com pitadas de sarcasmo, o filósofo é um típico representante do humanismo, pois tem a ousadia de abalar a paz insossa do período medieval. Defendendo a criatividade humana, faz oposição à escolástica, movimento teológico-filosófico que subordinava a razão à religião.

Descobrimos o nosso “Erasmo”: – ah é Lisca doido! Ele, respeitosamente e conscientemente, satirizou os grandes clubes com um futebol sincero, coletivo e convincente. A loucura riu da sabedoria, entidade enfadonha e caquética, que, convidada aos banquetes, acabou se tornando um grande estraga prazeres, com seus discursos enfadonhos e ar carrancudo. Tipo alguns comentaristas que conhecemos por aí…

É assim que vejo, hoje, os catedráticos do futebol, cheios de teorias a respeito de esquemas táticos importados de algum lugar que não nos interessa. Diante de Lisca, o Doido, não conseguem traçar um plano para conter a energia que brota de um futebol raiz, cheio de nervosismo, de entrega e emoção. Longe dos grandes salários e do pragmatismo da bola, ele é um autêntico contestador da suposta hegemonia do futebol belorizontino.

O América provou que a loucura é libertadora, criadora de outros mundos possíveis. Com ela, chegamos em lugares inimagináveis. Mas cuidado: esse caminho só é possível depois de nos libertarmos das mentes encarceradas por cálculos e estatísticas futebolísticas.

Só nos resta traduzir, para o mundo inteiro, que “saiu do hospício pra ser campeão”.  Lisca é mais que doido, é um profeta, um Antônio Conselheiro, que devolve à partida o título de “esporte bretão”, um aviso de que, mesmo titubeante, ainda existe vida após a instauração da praga chamada futebol moderno.

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