A Fraude Eleitoral

É preciso considerar, com seriedade, a tese das eleições fraudulentas. Não podemos satirizar as premissas que colocam em suspensão o resultado das urnas. Vociferamos contra dois ou três que levantam essa hipótese e, com isso, não refletimos com profundidade a respeito da denúncia.

Caro (e)leitor e cara (e)leitora, durante muito tempo fomos convencidos de que a política é uma vocação. Tese infeliz de Aristóteles que, vivendo a decadência da democracia grega, tentava salvar uma certa natureza coletivista do ser humano, afirmando que “o homem é, por natureza, um animal político. Como diria um certo jogador de futebol e líder religioso: – mentiram! Mentiram para você, viu?

Não existe vocação política, pois a política é, na verdade, nada mais que uma profissão. Essa afirmativa dói aos ouvidos? Tranquilo. Um certo grau de sabedoria também vem acompanhada de uma boa quantidade de dor. Basta olhar ao lado. O que orienta as eleições além da velha lei de oferta e procura?

Sabe o real motivo da infinidade de partidos políticos no Brasil? Simplesmente porque ainda existem nichos de mercado a serem conquistados. Sei que é mais fácil colocar a culpa no sistema eleitoral, mas a verdade é que construímos uma cultura política (se é que ela existe em nosso país) que não valoriza a fidelidade partidária. Por isso que nossos votos circulam no mercado de ações, disponíveis aos candidatos que fizerem a melhor propaganda ou disponibilizarem mais recursos. Tipo promoção de cerveja, quando aproveitamos para levar aquela de melhor custo-benefício.

Ainda bem que Thomas Hobbes tentou nos despertar desse sono dogmático: o homem é o lobo do homem,  afirmou ele a partir de um adágio antigo. Traduzindo: que natureza política que nada! Somos seres em luta constante e, se não atacamos o outro, não é porque o respeitamos enquanto um irmão da pólis, mas sim porque tenho medo de que ele se revolte contra nós. Isso mesmo, caro leitor, o medo é o grande responsável por unir os homens em torno das decisões políticas. Não é a paz, a justiça ou a fraternidade, mas simplesmente o temor em relação ao próximo. O medo une mais os homens do que a felicidade.

Alguns CEOs políticos descobriram isso há bastante tempo. E antes de você ir às urnas eles já espalharam esse sentimento em toda a sociedade. Duro, não é? Mas a política nada mais é do que o resultado de um sentimento. É esse pavor que nos faz tomar decisões e é manifestado na urna, no fatídico dia das eleições. Por isso que, após o sufrágio, muitos sentem um certo alívio. O medo do neoliberalismo, do comunismo, do globalismo, do capitalismo, da cristofobia, da mamadeira de piroca, da doutrinação, da dominação estrangeira e etc. Sempre ele! Essa herança ancestral que nos fez chegar até aqui, protegendo-nos de sermos presas fáceis de nossos predadores naturais, é o elemento fundamental na tomada de decisão do homem médio, comum, que acaba se tornando o grande responsável pelo resultado do pleito.

Por isso que, voltando ao tema inicial desse texto, recoloco minha hipótese da grande fraude eleitoral. Mas alto lá, caro leitor e cara leitora! Vamos fugir do simplismo pueril. Deixa de ser besta! Como diriam os filósofos caipiras. Você acha que é preciso escancarar a farsa eleitoral fraudando contagem de votos no dia das eleições? O sistema é bem mais complexo do que você imagina. Se a vida fosse tão simples não precisaríamos de pensamento.

Existem várias formas de interferir no resultado de uma partida. Não é apenas anulando gol ou criando pênaltis inexistentes. Simplesmente o árbitro pode cadenciar o jogo, marcando muitas faltas, ou desestabilizar emocionalmente um determinado jogador, que poderia ser decisivo durante o jogo. Pode-se, em último caso, até escalar uma equipe que, de antemão, sabe-se que não é digna de boa arbitragem. A interferência indireta é sempre mais eficiente.

Apesar das tantas perguntas, uma coisa podemos ter certeza: você pode xingar os profissionais da política (os especialistas do medo) de várias coisas, menos de burros. A fraude nunca vai aparecer na contagem de votos. Ela é muito anterior a isso.

Basta dar uma olhada no Zap da família e checar o número de fake news espalhadas por gabinetes muito bem conduzidos por políticos que fazem de tudo na defesa do negócio familiar. Ou entender como as convenções partidárias acabam sempre escolhendo os caciques para disputarem as eleições.  É só pesquisar as doações de grandes corporações financeiras que, ao se tornarem maiores que os Estado Nacionais, acabam definindo, exclusivamente a partir de seus interesses financeiros, a vida de bilhões de pessoas. Dê uma olhada naqueles que ocupam os cargos de confiança e como eles utilizam a máquina pública para a sustentabilidade financeira do negócio, ou melhor, para a longevidade do projeto político de seus partidos. A fraude não acontece nas urnas, ela já está instalada nas consciências.

Chego a pensar que a democracia se tornou uma grande peça teatral, servindo apenas às instituições de controle internacional para dizer que está tudo bem e que aqui é o povo quem decide o rumo da do espetáculo. Mas, na verdade, assistimos passivamente às decisões que são tomadas por diretores e roteiristas. Lógico que as emoções ficam à flor da pele. Discutimos o rumo do espetáculo e até fazemos críticas quando ela é encenada sem excelência. Elaboramos teorias e, com a catarse doméstica, acabamos em desavenças com quem partilhamos a vida e a história. E para você que que desfaz laços de amizades por causa de partidos e candidatos e briga com os familiares por questões ideológicas, vai o conselho de pai que, vendo o filho se destemperar por causa do futebol, avisa: – seu mané, enquanto você briga os caras enchem o bolso de grana! Deixa de ser otário!

Sábio mesmo foi Epicuro, que juntou seus amigos e foi morar em um jardim, bem distante da farsa que foi toda democracia ateniense. Para ele e seus seguidores o Estado não passava de uma mera conveniência e, portanto, não seria por ele que iríamos extirpar os males do mundo. A tarefa fundamental de todo sujeito seria o árduo trabalho de “cultivar o seu jardim interior”.  O filósofo, há mais de dois mil e quinhentos anos, parece que avisava aos eleitores brasileiros: a política nada mais é do que a arte de fazer inimigos.

3 thoughts to “A Fraude Eleitoral”

  1. Renato,
    Tenho escrito há muito sobre coisas relacionadas è política. Tenho alguns cuidados e, em certa medida, relacionado o que escrevo a aspectos filosóficos e históricos. É certo que o que Aristóteles ou qualquer outro pensou sobre democracia ou Política (com P no superlativo) não tem absolutamente nada a ver com as “jabuticabas” que temos hoje.
    Como disse, já escrevi muitos textos no meu blog que passeiam pela democracia guiada em que vivemos e que as redes sociais fizeram o favor de jogar no lixo qualquer tentativa de civilidade na política.
    O Hedonismo e a perspectiva de uma “grande negócio”, com toda a certeza, não tem nada a ver com a ideia de “político como profissão”. “Brasileiro não sabe votar”, lembra-se (até escrevi post recente sobre isto. Creio que devíamos superar as reflexões … PERDEMOS !!!

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