Corpos dóceis: a era do futebol sentado.

É triste ver uma criança jogando em grama sintética, entre grades e apitos. Tento fugir da imagem, mas sempre me vem à mente um típico prisioneiro tomando banho de sol.

Ela desce do elevador, entra no carro, abre a porta, chega na quadra, coloca o colete, aquece e… vai correr entre cones, reduzida aos espaços, confinada ao esquema, sempre tático.

Estratégia, tática, ataque, defesa, mais parece um treinamento militar. Com isso ganhamos mais corpo dóceis, confinados aos esquemas adultos, estrategicamente pensados para inibir qualquer desordeira criatividade. Em Vigiar e Punir, Foucault alerta:

É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado.

Notemos as características fundamentais: utilização, aperfeiçoamento. Com isso, ensinamos que o corpo não é para si, para uma expressividade própria, para genialidade. Ele pertence à maquinaria do mundo e, com isso, pode ser esquadrinhado, desarticulado, recomposto. Assim, acostumamos nossas crianças à prática da sujeição, atitude que aponta para o sentimento de culpa toda vez que a criatividade quiser se opor à disciplina.

Geralmente, pessoas assim crescem e são aqueles sujeitos chatos no Estádio, que teimam em dominar o corpo alheio, gritando o famoso: ô! Senta aí! Que nada mais é do que a vocalização de uma disciplina aquartelante, não condizente com o futebol.

Quer assistir ao jogo sentado? Fique em casa! O campo é lugar de gente gritando, abraçando quem nunca viu na vida, xingando palavrões, impropérios e impurezas que nenhuma água benta no mundo é capaz de lavar.

Lógico que a turminha do futebol europeu irá esbravejar e, torcendo o nariz, à francesa, amassar o terno e a gravata. Essa gente docilmente colonizada, capaz de trocar ouro por espelho, acabou substituindo uma partida de futebol pelo consumo na sociedade do espetáculo.

Não é à toa que craques são raros, pois são aqueles capazes de vencer o adestramento tático e, com a genialidade dos mestres, a impulsividade dos animais e a rapidez dos deuses jogam para baixo qualquer esquema tático com um simples-complexo lance individual. Por isso que eles nascem da terra, do chão batido, da desregulamentação do futebol de rua, tão raro nas grandes metrópoles.

Jogar bola é diferente do que ir à escolinha de futebol. O movimento do deixar a pelota rolar é vital para que surja, em cada lance, um novo começo. O futebol carece do devir-criança, da destruição-criadora, do sagrado movimento de dizer sim e afirmar-se como aquele que é responsável por girar a roda do destino.

Toda submissão nos faz covardes, adestrados, inférteis. É preciso matar o futebol docilizado, maquinaria lucrativa na sociedade de mercado, para que renasça a criatividade daqueles que fazem da partida uma metáfora da vida: nascer, correr, chutar, driblar e morrer… no mais profundo das redes!

2 thoughts to “Corpos dóceis: a era do futebol sentado.”

  1. O futebol é e foi criado para que a criatividade sobressaia, permita ao praticante ser diferente e com talento e improviso fazer brilhar os olhos do espectador … sem isso não é “ludopedio” e sim algo mecânico , sem o brilhantismo da inventividade humana … o coletivo tem que funcionar a favor do talento criativo e não o contrário sob pena de vermos este suprimido perdendo a beleza dos toques geniais( um lençol , uma caneta, um drible diferente , um gol com maestria)… salve o futebol na sua essência , das jogadas de Pelé, avassaladoras , da ousadia de Garrincha com suas mudanças de direção , do “peixinho” de Tostão no Pacaembú , da velocidade de Ademir do Coelho que só para qdo a rede balança ! ?⚽️?

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