Ê Galo! A Lei do Eterno Retorno

Ê Galo! Essa era a expressão usada por um colega de trabalho sempre que algum copo quebrava, faltava papel na impressora ou o chefe dava alguma colada. Como não tínhamos relação próxima, nunca conversamos sobre futebol. Coisas do trabalho que, muitas vezes, não dá espaço para pensar naquilo que faz a vida ter significado.

Certo dia, no final do expediente, vi aquele sujeito saindo da empresa com a camisa do Cruzeiro. O Ano era 2003, momento em que a torcida celeste comemorava seu primeiro título brasileiro. Repito “comemorava”, pois isso foi antes da CBF começar a enviar títulos por e-mail, mas isso é conversa para outra história.

Intrigado com aquela situação, tive que vencer meu superego e perguntar para o sujeito porque tamanha virafolhagem. Afinal de contas, pelas regras do torcedor, é possível uma certa mutação até cerca de 5 ou 6 anos. Isso é tolerável. A família é grande, uns puxam pra lá, outros pra cá e, no final, quem decide é sempre o coleguinha da escola. Mas aos trinta e tantos anos isso não é permitido! Uma verdadeira afronta ao Código de Conduta Ética do Torcedor.

Foi então que ele me disse (graças a Deus em tom amigável): – alto lá, camarada! Nunca fui atleticano, aqui é Cruzeiro, entendeu?! Confessei a ele que não tinha entendido. Recolhendo-me à humildade de quem desconsiderou alguma parte importante da aula e depois deve ir à mesa do professor para perguntar o que vai cair na prova, argumentei: – poxa, mas então porque sempre quando acontece algo você diz, ê Galo? Ele riu. Deixando mais exposta a minha ignorância das múltiplas significações do linguajar filosófico-futebolístico. Logo ele explicou que aquilo era apenas força de expressão, usada quando alguma coisa dava errado.

Essa era a constatação de que aconteceu algum azar ou que alguma expectativa foi interrompida. Daí em diante entendi que: ao esquecer o guarda-chuva,  ao visualizar o pão caindo com a manteiga pra baixo ou constatando que o papel higiênico acabou, justamente naquele momento característico de exposição da fragilidade humana – e você se lembrar do professor de Administração falando que planejamento é tudo –  basta dizer ê Galo! Para que a força do cosmo seja recolocada em seu devido lugar, ou seja, a justificativa de que, apesar do erro, é preciso amar a vida como ela é.  

Chego a pensar que todo atleticano deveria conhecer o Eterno Retorno do Mesmo, conceito nietzschiano que poderia fazer parte do dia-a-dia alvinegro. O “Torna-te quem tu és” é uma espécie de imperativo que coloca a necessidade de romper as barreiras da ilusão e assumir-se, ativamente, em toda sua potência, independente do que vier.

Não é sobre sorte que estamos falando, muito menos da chamada lei de Murphy, mas de uma espécie de elã vital que paira sobre o time do Galo desde 1971. Duvida disso? Então leia o trecho abaixo e me fale se não poderia ter sido escrito por um atleticano logo após o jogo contra o Bahia ou Sport:

Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente.

Nietzsche, Gaia Ciência, §341

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