A UTOPIA DA VIDA PRESENTE

A vida nos obriga a esquecer. O presente exige de nós corpo inteiro. Para uma civilização platônica, ocidental, que decidiu dividir o “braçal” do “intelectual”, a “mente” do “corpo”, as “ideias” da “realidade”, essa é uma tarefa muito difícil.

O peso do passado nos assalta, levando nossa atenção sempre para onde não estamos. Com isso, somos desmaterializados em memórias, sempre vistas no presente, o que é uma profunda sacanagem. Fácil ver agora os erros que foram cometidos por alguém que não é aquele que analisa. Hipocrisia farisaica pensar que poderia ter sido diferente, pois aquele (ou aquela) que agia lá atrás não tinha os instrumentos reflexivos que tem agora. O pensamento sempre chega atrasado.

Viver assim é como sonhar com aquele gol perdido, na final do campeonato, no último minuto. E a lembrança exaustiva nada mais é do que um memoricídio. Como uma flecha, a vida caminha para frente. O instante nos assalta e é preciso estar com os afetos em dia para aguentar esse corpo-a-corpo do destino. Como um barco à deriva em meio ao um oceano de sentimento, estamos nós, e o máximo que podemos fazer é nos entregar ao mistério da vida que, em sua essência, precisa do desejo, do corpo, para a continuidade da espécie. Afinal, não nascemos de uma ideia.

Se a vida nasce do desejo, o pensamento nada mais é que apenas uma consequência. Nunca uma causa. Como diria Rousseau: eu senti antes de pensar. A consciência é fato novo na história da humanidade. Estima-se que ela tem apenas 35 mil anos. Parece muito? É um nada se comparado ao surgimento do Homo Sapiens, cerca de 300 mil anos. Mais insignificante ainda se olharmos para o universo: cerca de 14 bilhões de anos. Concluímos que a consciência é fato novo, os instintos, não. Existe algo antes dela, muito mais ancestral e definidor do que somos. Muita ingenuidade pensar em uma “história humana”, movida por sujeitos, memórias e consciências.

Pensar com força naquilo que não aconteceu nos afasta da situação que exige de nós atenção total. Deve ser por isso que a vida de nossos ancestrais era mais intensa. Afinal, o presente vinha de assalto a todo momento e, com isso, desenvolvíamos uma forma nova de viver cada instante. Mas, em algum momento adoecemos. Encurvamo-nos ao sedentarismo, à ideia de estagnação, abandonando a vida real em troca de um “ideal de vida”. E hoje estamos aqui, trocando o instinto de sobrevivência pela síndrome do pânico. Respeito quem tem opinião contrária, mas pense: um cavalo amansado é um cavalo melhorado? Ou um animal que deixou de viver para si e passa a existir sob o domínio de outrem?

Esse ressentimento é típico daquelas pessoas que não conseguem dormir pensando no pênalti não marcado, na mão que interrompeu o caminho da bola e na falta mal batida. Com isso, temos a desculpa necessária para fugir do jogo da vida. Afinal, podemos dizer que tudo seria diferente se aquilo que não aconteceu tivesse existido. No mínimo uma contradição. Ou uma tentativa de buscar o prazer onde ele não está, ou seja, um erro de rota. O esquecimento deveria figurar como uma virtude, um exercício ensinado na escola. Devíamos aprender a esquecer.

Enquanto isso, o momento presente dança em nossa frente, esperando o toque, o afago, a luta. Comportamo-nos como o poeta de Baudelaire, que ao enxergar a musa passeando pela rua fica pensando se deve ir ao encontro dela. De tanto pensar ele não decide. Quando se levanta, ela já sumiu em meio à multidão e passa a ser somente uma lembrança amarga de algo que não aconteceu.

Não se submeta à história! A vida urbana, com suas informações fartas, seus sinais luminosos e sua correria banal nada mais é do que uma expropriação da experiência, nos empanturrando com informações vencidas e futuros irrealizáveis. Se fores buscar uma utopia, que ela seja: a utopia da vida-presente. Pois é o único engajamento político que vale a pena.

Coloque em sua frente a certeza de que a história deve estar à serviço da vida, e não o contrário. Afinal, o universo nada lhe prometeu. Assumir que somos filhos do acaso é lutar para que não vivamos de ocasos.

E se você titubear durante esse percurso, deixo aqui um receituário do Dr. Nietzsche (Segunda Consideração Intempestiva):

Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz com seu prazer e desprazer à própria estaca do instante, e, por isto, nem melancólico nem enfadado. Ver isto desgosta duramente o homem porque ele se vangloria de sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade – pois o homem quer apenas isso, viver como o animal, sem melancolia, sem dor.

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