PROFESSOR NÃO É HEROI!

Causa um certo incômodo quando as discussões a respeito do magistério giram em torno de uma certa áurea sacerdotal. Nada contra a mistificação da realidade. Inclusive acredito que ela é extremamente importante para vivermos melhor, afinal de contas o céu de Ícaro tem muito mais poesia que o de Galileu. A questão é quando esse discurso assume, na realidade, uma certa ideologia que mascara as contradições sociais.

Para Karl Marx, filósofo alemão mais odiado que lido, a ideologia cumpre um papel fundamental: alterar a ordem das coisas, mascarando a realidade. Com isso, ela quase sempre serve a interesses escusos das classes dominantes que, no desejo de perpetuar as relações de poder, constroem discursos a favor de uma dominação simbólica, sempre mais eficaz que a violência concreta. Esta gera revolta, na medida em que promove a dor, aquela gera acomodação, na medida em que escraviza por meio da ilusão. Assim, a forma mais eficiente de promover a opressão é por vias ideológicas, pois faz o escravo se achar liberto e, nessa forma de pensar, desistir de lutar contra a subjugação, tendo a certeza de que tudo está resolvido.

Historicamente, a Educação nunca foi prioridade em nosso país. Se compararmos nosso processo de colonização aos nossos vizinhos da América Latina iremos perceber que o atraso educacional era projeto, e não apenas uma eventualidade. A universidade São Marcos, em Lima, no Peru, foi fundada em 1551. Em Córdoba, na Argentina, a Universidade Nacional foi fundada em 1613. A mais famosa das universidades públicas no Chile é também a mais antiga do país, fundada em 1843 na cidade de Santiago, a capital. Em nosso país, apesar de várias escolas já existirem no final do século XIX, como a Escola de Cirurgia da Bahia ou a Escola de Medicina do Rio de Janeiro, a USP (como modelo de Universidade), só foi fundada em 1934, e a UFMG, em 1927. Para fins de comparação, nesse mesmo período Freud já tinha terminado sua tese a respeito do inconsciente. Indo direto ao ponto: a educação sempre foi um assunto deixado para o último ponto na pauta das políticas públicas.

Atualmente, no Brasil, os cursos de licenciatura são os mais desvalorizados, sucateados constantemente pela falta de investimento e descrédito. Dados apontam que um professor da educação infantil ganha 20 vezes menos que um juiz. Outro censo nos mostra que 40% dos professores da educação básica lecionam em disciplinas nas quais não são formados. Menos de 1 em cada 10 brasileiros acham que o professor é respeitado em sala de aula, o que coloca o Brasil em último no ranking de status de professor, em uma pesquisa feita em 35 países, ficando atrás de Gana, Uganda. Estudo da OCDE revela que a média salarial dos professores no Brasil está entre as piores, recebendo quase a metade da média praticada por 38 países membros.

Enfim, poderíamos ficar relatando todos os dados referentes à desvalorização real desse trabalhador que, como muitos outros em nosso país, sofre diariamente para conseguir construir, no mínimo, condições apropriadas de trabalho. Para além da ideologia, o que percebemos são mulheres e homens que tentam, mediante todos os desafios da realidade, construir, com competência e boa vontade, uma situação de trabalho sustentável e dignificante.

A grande questão é que o discurso good vibes a respeito do lugar do professor, disseminado em figurinhas, memes e textos, não reflete a condição real e material desse trabalhador. Sustentamos uma ideia do “professor” que serve muito mais como desencargo de consciência, nos aplacando das angústias políticas. Prova disso é que esse processo de desvalorização, sistemático e cruel, faz com que estudantes em sala de aula não vejam a carreira docente como possibilidade de realização profissional.

Enfim, tomemos cuidado para que a ideologia santificadora em relação ao trabalho docente não nos afaste da realidade material que nos convoca muito mais à indignação que ao elogio.

O herói é uma figura controversa, que chega para apagar o incêndio e resolver os problemas. Permeado por circunstâncias enigmáticas, ele está acima da política e, por esse motivo, não precisa de direitos, pois vive em uma outra realidade, sobrenatural e mítica, que o eleva acima dos pobres mortais. A professora e o professor são o contrário disso.  Eles são seres reais, que não participam de um sacerdócio divino e, por esse motivo, possuem necessidades materiais de sustento vital, que os obrigam, muitas vezes, a jornadas triplas de trabalho, levando para casa, no final dia, um corpo cansado, após uma luta gloriosa, mas invisível. Ele não é um sujeito que resolverá magicamente todos os problemas justamente porque ele é parte afetada, sobremaneira, por esses mesmos problemas.

Longe de mim ser contrário aos elogios e homenagens aos professores nesse dia, mas é preciso saber que nem sempre os discursos condizem com a realidade, sobretudo em um país onde seu próprio (anti) Ministro da Educação afirma que “hoje, ser um professor é ter quase que uma declaração de que a pessoa não conseguiu fazer outra coisa”

2 thoughts to “PROFESSOR NÃO É HEROI!”

  1. Sou contrário à comemorações de qualquer “dia disso” ou “dia daquilo”.
    escrevo há muito tempo sob este aspecto.
    Coincidentemente, no dia do professor, escrevi mais um texto na mesma linha de refutar as “homenagens”… e IMHO, repudiar as hipócritas “homenagens”.
    Dia do Professor – Elegia ( ver texto no link http://evandrooliveira.pro.br/wp/2020/10/15/dia-do-professor-elegia/ ) é o que penso… E, de modo contrário, penso que devemos nos manifestar CONTRA elogios e homenagens, se aceitamos sem pontuar, o senso comum vence.

  2. Publiquei um comentário e acredito que por eu ter colocado um link, caiu na “malha fina”.
    Se possível, libere com o link para meu site, caso contrário, a liberação sem o link perde pouco do conteúdo mas é aplicável.

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