Jogo é jogado, lambari é pescado!

 

Expressar-se filosoficamente é tarefa árdua, sobretudo porque envolve um contexto cultural em que é preciso compartilhar um significado. Trocando em miúdos, transcrevo ipsis literis o pensamento filosófico que herdei de minha mãe: quando um burro fala o outro abaixa a orelha.

Por isso que nada melhor do que a vida cotidiana para nos oferecer adágios e provérbios úteis na busca pela sobrevivência diária. Os acadêmicos e catedráticos nunca compreenderão a riqueza reflexiva transcrita no corpus da sabedoria popular.

Vale lembrar que a própria filosofia começou assim: uma espécie de remédio para a alma, exercício espiritual de excelência humana, tentando oferecer ao sujeito, sobretudo o homem comum, uma forma de viver melhor frente à contingência da vida.

Epiteto, um dos meus pensadores preferidos, tem um pequeno livro que vale a pena ler. Chama-se Enchirídion, simplesmente Manual (que também pode ser traduzido por punhal), que os guerreiros carregavam para as batalhas. Ali constavam vários conselhos éticos que auxiliavam aos combatentes em suas lutas diárias, muitas vezes preenchidas de mais dores do que amores. Digamos que este filósofo preferia o ponta-de-lança que o meia de criação.

A única linguagem que dá conta da vida é o dialeto da existência real, aquele que, sem rodeios, crava em nós o punhal da realidade e nos recoloca na travessia do cotidiano. Nietzsche, por exemplo, acreditava que a filosofia se fazia mais a “golpes de martelo” do que pela “leveza da pena”. Por isso que ele preferia os aforismos, forma de escrita que privilegia a velocidade do corpo, a sagacidade da alma e a transparência dos afetos verdadeiros, do que aos textos científicos.

Como um antigo ponta direita ele acreditava na velocidade do afeto, na verdade do corpo, no drible rápido e preciso, e não no pensar burocrático e demorado, apelando para um suposto refinamento conceitual. Para ele isso era apenas uma tentativa de justificar o “pensamento sobre a escrita”, prostituição do próprio ato de pensar, troca de passes sem intensidade que olha para a meta com desdém.

Descartes escreveu vários textos, mas ficou conhecido mesmo foi pelo penso, logo existo. Aristóteles, pai da ética, não ficou conhecido pelo seu livro “Ética a Nicômaco”, mas pelo seu adágio: uma andorinha não faz verão. A maioria das pessoas não leu o Leviatã, mas sabem que o homem é o lobo do homem. Rousseau é mais conhecido pela frase o homem é bom e a sociedade o corrompe do que pelos títulos: Discurso sobre a origem e a desigualdade entre os homens, Emílio: da Educação e Discurso sobre as Artes e as Ciências.

O futebol, nesse sentido, é uma fábrica de saber, pois nos oferece adágios que nos ajudam a viver. Quem não se dedicou a pensar futebolisticamente perdeu metade da vida. Ele é revestido de uma sabedoria popular que nos diz mais sobre a realidade do que qualquer texto eurocêntrico, tentando traduzir a vida e toda sua multiplicidade. Por isso, sugiro que:

  • Antes de tomar uma decisão, pense: em time que está ganhando não se mexe.
  • Quando a vida estiver difícil, considere: bola pro mato que o jogo é de campeonato.
  • Se a fantasia começa a ocupar o lugar da realidade, diga a si mesmo: jogo é jogado, lambari é pescado.
  • Se for prejudicar alguém, reflita: a bola cobra!
  • Diante da culpa, grite: não existe gol feio, feio é não fazer gol!
  • Se a grana estiver curta, siga o conselho: quem tem a bola ataca, quem não tem defende.

Para terminar, não posso deixar de fora o grande Nelson Rodrigues que nietzscheanamente tentou representar a vida como ela é, fazendo de nós a pátria de chuteiras. Por isso que, segundo ele, o intelectual brasileiro que ignora o futebol nada mais é que um alienado de babar na gravata.

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