CRIANÇAS DOENTES: A CULPA É SOMENTE DA PANDEMIA?

CRIANÇAS DOENTES: A CULPA É DA PANDEMIA?

 

Todo nascimento é um ato político. Esse é um dos resultados arrebatadores do pensamento de Hannah Arendt, uma das maiores pensadoras do Séc. XX. Para além do ato biológico, ela confere à natalidade a conservação daquilo que chamamos de humanidade. É importante destacar que o “ato político” não pode ser visto como uma função administrativa, política partidária, mas como o conjunto de relações humanas que decidem o destino coletivo da pólis, uma Inteligência compartilhada em busca do bem comum.

Nesse momento, Arendt estabelecia um diálogo, filosófico e amoroso, com um dos grandes mestres do pensamento ocidental: Martin Heidegger. Nesse assunto, o pensamento do filósofo alemão percorria um caminho diferente. Ele definia o ser humano como um ser-para-a-morte e, com isso, o caráter existencial de sua filosofia residia na angustia e na inconstância de viver. Discipula do pensamento de Agostinho, Arendt faz outro percurso. Ela volta seu olhar para o fato de que não somos apenas seres que caminham com a morte diante dos olhos, mas sim seres que possibilitam o nascimento de outros seres. Portanto, se em Heidegger o olhar é para dentro, em Arendt (e também Agostinho) o olhar é para fora, em direção a um mundo que acolha aqueles que chegam.

Em um de seus livros mais famosos “As Origens do Totalitarismo”, a pensadora termina com uma das frases mais bonitas da história da filosofia, inspirada em Santo Agostinho ela nos fala: O homem foi criado para que houvesse um começo, disse Agostinho. Cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós. Nessa linha de raciocínio ela aponta que um dos antídotos contra os regimes totalitários é a renovação, possibilitada em cada ser que chega, como estrangeiro e peregrino, à casa comum.

Nesse ponto reside uma questão de extrema importância: não é apenas organizar o ato biológico de trazer novos seres ao mundo, mas a responsabilidade ética de organizar esse mundo para que ele seja acolhedor aos que chegam, garantindo a possibilidade de vida plena e feliz, materializada nas escolhas políticas e na garantia de direitos.

Por isso que falar de uma política de letalidade é pensar também em práticas sociais que não consideram a natalidade como um dos pontos fundamentais da organização social. Lembremo-nos daquela experiência vivida, sobretudo nas cidades do interior, diante dos sepultamentos. A cidade parava por onde passava o cortejo fúnebre. Era uma profunda reverência à fugacidade da vida, ao mistério único que residia no corpo daquele que agora se despede dos outros. Utopicamente, nosso horizonte deveria ser o mesmo para aqueles que chegam, dando continuidade à mística do existir: que a cidade voltasse seus olhares para o ato de nascer, preparando-se para amor-tecer aquele que chega, na proteção, no cuidado e na garantia de seus direitos.

Um dos argumentos para a volta às aulas é o cuidado com a saúde mental das crianças, devido ao crescimento dos casos de depressão infantil, ansiedade, automutilação e tantas outras patologias. Impossível negar a concretude desse fato, pois elas foram privadas de um ambiente preparado para o desenvolvimento pleno de suas potencialidades. Mas quero ressaltar que, nesse sentido, o argumento utilizado fala muito mais de nosso tempo do que dos efeitos negativos provocados pela pandemia. Mais uma vez, ela chegou não apenas para mudar o rumo das coisas, mas para ressaltar as barbaridades e as selvagerias que muitas vezes praticávamos como atos corriqueiros e banais.

O direito ao brincar, à saúde, à liberdade e à dignidade de ser criança, ao crescimento em um ambiente de compreensão, tolerância e amizade, de paz e de fraternidade universal muitas vezes é atropelado, não apenas pela violência concreta, retrato da selvageria humana, mas sobretudo pela violência simbólica que, justificada pelo mundo produtivo, faz com que o ato de desejar um filho esteja subordinado às necessidades da sociedade de mercado.

Nesse sentido, o filho-produto se torna uma mercadoria indesejada que, sem política de troca, acaba sendo desconfigurado para melhor caber no projeto de adulto-normatização da sociedade. Talvez por isso que estejamos mais acostumados aos protocolos dos Shoppings do que os Hospitais-Maternidades. Os espaços reduzidos nas casas, o mísero tempo dedicado ao brincar e ao lúdico, a convivência violenta entre os adultos, fazem com que a criança não se sinta protegida em sua própria casa, o que dirá no mundo.

Essa desproteção, reflexo de uma organização social que solta foguetes à ideia de que criança tem que trabalhar! fala de um projeto político que olha para o nascer com desconfiança, pois vê nele a interrupção das cadeias produtivas. Por esse motivo, qualquer incremento naquilo que diz respeito ao tempo da licença maternidade-paternidade, ao apoio à primeira infância, aos investimentos dedicados para o acesso à arte e cultura, são vistos como investimentos perdidos.

A verdade é que o mundo contemporâneo, em grande medida, é hostil ao nascimento, e um dos primeiros fatores observados é que para muitas delas “ficar em casa”, lugar que deveria ser o primeiro reduto para a garantia do direto a “ser criança”, acabou se transformando em um ambiente tóxico.

Assim, não se pode negar o efeito devastador na vida psíquica de milhares de crianças que, nesses meses, perderam o espaço da escola. Mas, principalmente, é preciso alertar à sociedade que esse efeito fala muito mais dos lares, fechados há muito tempo para o Direto da Criança, do que simplesmente o fechamento dos colégios.

3 thoughts to “CRIANÇAS DOENTES: A CULPA É SOMENTE DA PANDEMIA?”

  1. Se todo grande poeta tem algo de filósofo, todo bom filósofo tem algo de poeta. Belíssimo texto, quase uma forma de acupuntura verbal no tecido social doente de todos nós. Parabéns!

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