EM BUSCA DOS PEQUENOS PRAZERES!

A vida é a soma de pequenos prazeres. Sei que os marxistas ortodoxos chamarão isso de alienação, individualismo, ou mesmo de pensamento pequeno-burguês. Mas não estou disposto a entregar minha breve existência para entidades abstratas como “Estado”, “Revolução”, “Conscientização” ou mesmo a “Transformação Social”.

Alto lá, caro leitor! Também não me confunda com os chamados Liberais, gente que foi picada pela mesma mosca da abstração. O “Mercado”, a “Liberdade” ou o “Livre-comércio” fazem parte do mesmo jogo, só que de sinal trocado. Disse Guimarães Rosa, pela boca de Riobaldo: – quem muito se evita, se convive.

Peço licença para levantar minha bandeira: pequenos prazeres, ainda que tardios!  Não estou falando de minimalismo, simplicidade voluntária e tantos outros termos que entram no mercado para vender algum estilo de vida. São apenas presentes antigos em novos embrulhos. Chegam no mesmo lugar: a compra de um marketing existencial mais cool. Os pequenos prazeres fazem parte de outra classe de vivência.

Epicuro pregava que a busca pelo prazer de viver é mais uma aproximação do que um distanciamento, afinal “a verdadeira riqueza não consiste em ter grandes posses, mas em ter poucas necessidades”. Como disse, é mais do que viver em simplicidade. O pensamento do filósofo é uma exortação para que “tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível”. Sua filosofia é um alerta para não consumirmos nossa vida na espera pelo prazer. Precisar de sempre mais, mais e mais é um distanciamento do gozo autêntico e não uma aproximação da felicidade, pois “nada é suficiente para quem o suficiente é pouco”.

Quem pode entristecer alguém que se deleita bebendo água de mangueira? Qual vinho caro chegará perto dessa experiência? Talvez seja por isso que as crianças herdarão o Reino dos Céus. Não pela santidade, pois quem tem filhos ou convive com os pequenos sabe que isso não passa de um idealismo tolo, mas talvez pela capacidade que elas possuem de se alegrar com o próprio corpo ou de se satisfazer com o pé na grama, a bola nas mãos e o picolé na boca.

Quem pode fazer infeliz alguém que se senta à mesa do bar, com cerveja barata, e ri com os amigos das desventuras da própria existência? É isso mesmo, caro leitor. Alguns possuem praticamente de graça (ou com pouco dinheiro) aquilo que outros pagam caro para obter: companhia, amizade, conversa, experiências. Assim, toda sofisticação se transforma em justificativa para a prostituição do prazer. A vida empírica, cotidiana, prática, é capaz de alegrar a todos aqueles que não tiveram seus corações corrompidos pelas grandes narrativas, que mais alienam que libertam.

Por isso que o futebol é uma filosofia de vida. Praticamente um epicurismo. Entregar-se ao grito de gol, ao desespero da defesa, à jogada de classe é estar atento para a nervura do real, com toda a carga do momento que, de tão intenso, eterniza-se em uma fração de segundos.

Nele descobrimos que viver de atos é muito mais prazeroso do que viver de causas, pois não existe “a história”, mas sim o conjunto de decisões individuais que podem nos aproximar (ou nos afastar) de uma vida plenificada pelo instante, momento único que, segundo o poeta Jorge Luís Borges, é sempre uma arma carregada, pronta para nos matar ou para nos salvar dos assaltos do destino.

One thought to “EM BUSCA DOS PEQUENOS PRAZERES!”

  1. Caro Filósofo.
    Obrigado pelas suas crônicas do cotidiano e da vida.
    Gosto muito das suas observações traduzidas nas palavras “filosóficas”
    Como fazemos para compartilhar, com os amigos e familiares, quando você toca na ferida e diz as suas e muitas vezes as nossas verdades

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