THIAGO NEVES E A DERROTA DO PRAGMATISMO

O debate a respeito da possível chegada de Thiago Neves ao Galo é mais do que especulação jornalística, jogo de bastidores ou velocidade de informação. Para além de tudo isso, temos um grande debate ético que gira em torno de uma pergunta norteadora do bem-viver: – valem mais os princípios ou os resultados?

Das poucas verdades que carrego comigo, uma tem resistido às investidas da descrença: a ideia de que ter virtude é melhor que obter resultados. Nem aprofundarei na seara filosófica ao dizer que é melhor se assentar sob a égide da virtude, pois ela é algo que depende unicamente do sujeito, do que caminhar sob a ótica dos resultados, correndo o risco da interferência de muitas variáveis. Trocando em miúdos: a virtude depende do indivíduo, já os resultados dependem da contingência.

O lado maquiaveliano do futebol entrou em ebulição após a comunicação de que Thiago Neves se juntaria ao elenco de Sampaoli. Apareceu muita gente falando das benesses e oportunidades de negócio, vantagens do contrato, compromisso de produtividade, etc.

O que vimos foi uma tentativa desesperada de atualizar o famoso “os fins justificam os meios, frase atribuída a Maquiavel – que, na verdade, nunca escreveu essa sentença, mas entrou para a história da filosofia como representação clara do pensador renascentista. Basicamente, o séquito pragmático tentou mostrar que não deve existir bem a priori ou outros valores como a fidelidade, compromisso, verdade, etc.

Retrato da vida contemporânea, esse pragmatismo ético tenta aprisionar o futebol em uma planilha de investimentos. Nessa mesma lógica ético-pragmática eles quebram clubes, enriquecem especuladores, exploram atletas e refletem a busca insana por lucro, trator que atropela toda e qualquer manifestação da sensibilidade e da beleza. Afinal, os maquiavelianos acreditam que “os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio”.

Tenho certeza de que o desejo de todo cartola é um futebol maquiavélico. São raros aqueles que carregam o amor pelo clube como princípio decisório nas instâncias de poder. Geralmente estão em busca de resultados individuais, não se importando com a cor da camisa, a letra do hino ou a paixão da torcida. Não entendem que o futebol é feito de histórias passadas de pai para filho, de desilusões que perpetuam resultados inexistentes, de que o batismo de um torcedor acontece no ventre da mãe, ainda protegido da selva de pedra que dá origem à sociedade de mercado.

Por isso que é preciso ler a recusa na contratação de Thiago Neves não apenas como uma manifestação da rivalidade mineira, mas como um grito que protesta contra um futebol pragmático, desencantado e, portanto, esvaziado de sentido.

Lembremo-nos sempre que futebol é paixão, sentimento que é o princípio de toda ação humana. Afeto que não se alimenta com resultados, mas com viabilização de sonhos. Sensação que transforma todo torcedor em um Quixote na luta contra os moinhos de vento, onde a loucura é mais bem-vinda que o cálculo de produtividade.

6 thoughts to “THIAGO NEVES E A DERROTA DO PRAGMATISMO”

  1. Muito bacana o texto,os tempos são outros infelizmente,O beneficiamento próprio para calgar cargos públicos e o enriquecimento de toda a cadeia futebolística só chega ao fim quando o time quebra.nao existe paixão em quem comanda o futebol a paixão está ainda em nós torcedores ,essa resposta da torcida do galo foi um grito que pode ser ecoado por todos nós ainda que eles queiram que sejamos sempre omissos como eles.

  2. Meu caro, esta sua crônica confirma plenamente sua titulação: educador, filófoso e amante do futebol. Parabéns! Sou Cruzeirense e resignado com o rebaixamento do meu time do coração: o Clube, explorado pelo pragmatismo nocivo de seus dirigentes, tem que passar por isso. Tomara que aprendam a licão.

  3. Aproveitando a oportunidade, por favor, faça também um discurso “filosófico” sobre
    a COVARDIA e a clausula COVARDE da multa no contrato do Fred com o Atlético, caso ele
    fosse jogar novamente pelo Cruzeiro…
    E que não teve a mesma repercussão na mídia, como o caso Thiago Neves x Atlético…
    Estenda um pouco, e divague sobre a “ética” na cobertura do futebol na imprensa mineira que,
    engana a muito tempo a torcida deste certo time, com mimos e falácias…

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