O silêncio dos estádios

Fico pensando no silêncio dos estádios vazios. Tudo bem que sempre tentamos calar essa experiência com alguma voz mecânica. É assim quando chegamos em casa e ligamos o rádio ou a televisão na sensação de que temos companhia. Nada mais justo para esse ser social que é o humano. Com isso, adiamos a investida da solidão, muitas vezes fundamental para o viver, mas quase sempre amedrontadora, pois o isolamento é uma forma de escutar os demônios internos que alimentamos diariamente com as migalhas de vida que deixamos cair da mesa da convivência: ódios, rancores, incertezas, pânicos, ciúmes, invejas e outras tantos restos.

Dizem que para conhecer alguém é preciso comer bastante sal com essa pessoa. Como sempre, um ditado popular revestido da mais fina filosofia. Talvez poderíamos adequar: para conhecermos a nós mesmos é preciso devorar vários sacos de silêncio em solidão. Precisamos compreender essa postura não apenas como ausência de barulho, mas como condição apropriada para auscultar as vozes internas. Lógico que tem gente que consegue fazer isso em circunstâncias diversas. Mas é no silêncio que os gritos percebidos ficam mais assustadores.

Muita coisa se falou das “experiências sociais” durante a pandemia e o isolamento social, mas grande parte dessas explicações passaram pela ideia de transformação ou de um caminho para a melhoria da humanidade. Já apontei meu ceticismo em relação a isso, pois penso que nas situações-limite nos apresentamos, verdadeiramente, da forma que somos. Não há mudança, há revelação. Fato é que voltamos, agora, conforme somos! Distante dos controles sociais tivemos a oportunidade de ser quem, de fato, escolhemos ser. Longe dos olhos dos colegas de trabalho, dos amigos e dos transeuntes que passam por nós tivemos a oportunidade de mostrar nossa verdadeira face.

Como as pessoas se portaram no projeto de retorno do mundo pós-pandêmico? Viu o tratamento dado aos fiscais que tentavam regularizar o funcionamento dos estabelecimentos comerciais? Sei que não estamos no fim dessa experiência ainda, mas já tivemos uma mostra de como esse tempo de isolamento foi decisivo para abrir as portas dos sentimentos escondidos há tempos pelos condicionamentos sociais. Como diria Guimarães Rosa “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano”. Nossa frieza, violência, escárnio e arrogância ficaram soltos, tiveram muito tempo de deglutição, digestão, e agora buscam suas presas.

Às vezes é preciso sentir a morbidez do silêncio que grita pela falta de palavras e definições. Ludwig Wittgenstein, filósofo que compreendia a linguagem a partir do jogo estabelecido entre os comunicantes, diz que “diante daquilo que não se pode falar é melhor se calar”. Postura respeitosa diante do absoluto. Um anúncio de que o silêncio pode ser mais ético do que os preceitos morais. Nesse sentido, a contagem diária dos mortos, ao banalizar a experiência misteriosa da finitude, nos mostrou que perder alguém acabou se assemelhando a perder algo e o assombro pelo fim da existência, sempre única em corpos e histórias, parece não assustar mais. Rompemos a última barreira.

O “minuto de silêncio”, que representava o respeito em relação aos que se foram, deixou ser um protocolo antes dos jogos e se encarnou como condição existencial de taciturnidade em toda sociedade, e não há som mecânico que substituta esse estar no mundo.  Por isso que apesar do barulho de uma cidade que começa a se reorganizar, é preciso entender que o mutismo mórbido dos estádios denuncia, entre outras coisas, não apenas a ausência de torcedores, mas a mudez de pessoas que, diariamente, partem para o espaço cantado pelo corvo de Edgar Allan, o lugar do  nunca mais… nunca mais… E não há nenhum recurso tecnológico que dê conta disso.

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