O Cruzeiro é o time da pós-verdade

Em 2016, o dicionário Oxford elegia a palavra “pós-verdade” como conceito do ano. De lá para cá esse termo ganhou os artigos científicos, dissertações, teses, documentários e, por que não, a mesa de boteco. Falar em pós-verdade era sinal de que você estava antenado naquilo que norteava o debate público ao redor do mundo, pois esse vocábulo obteve grande espaço nas discussões sobre política.

Pós-verdade diz a respeito a um discurso que não condiz com a realidade. Sei que você deve estar pensando que os caras só arrumaram um jeito mais acadêmico de renomear a mentira, mas não é bem assim. A coisa é bem mais fina quando percebida de perto.

Segundo os pesquisadores “Post-truth (pós-verdade) é algo relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais”. Ou seja, não é uma simples mentira, é algo muito mais elaborado.

Nietszche, em A Gaia Ciência, já provocava os adeptos desse discurso vazio, ao exortar:

 “Não se encha de ar: senão basta uma alfinetada para estourar”.

O filósofo nos fazia uma provocação. Talvez a verdade não seja nada mais do que uma espécie de acordo entre cavalheiros,  um acerto entre dois falantes que partilham o mesmo significado. Pensemos:  se você for ao dicionário e pesquisar a palavra “verdade” você encontrará o quê para defini-la? Outras palavras! Então, será que tudo não passa de sentenças e expressões? Será que toda realidade, toda lógica e pensamento são formados a partir dos discursos?

Enfim, conforme você pode perceber, caro leitor, a coisa não é tão simples assim. Mais difícil que entender isso é tentar mostrar para um cruzeirense que time grande cai e, se não jogar bola, vai continuar caindo. Mesmo usando Adidas, com jogo durante horário nobre e mantendo um discurso inflamado, na tentativa de resgatar as glórias passadas, como guia turístico na porta de museu, o time está à beira da falência econômica e moral.

Para não dizer que minhas palavras trazem muita crueldade, vou até usar a Bíblia:  A arrogância e todo petulante tropeçará e cairá, e ninguém os ajudará a se levantar (Jeremias 50:32). O sentimento do torcedor celeste logo após o fatídico jogo contra o Palmeiras,  em 2019, que decretou o rebaixamento, já era um prenúncio, a primeira tentativa desesperada de, mediante um discurso permeado de vaidade, tentar modificar a realidade.

Espero não ouvir esse ano o mesmo rame-rame: –  que não existe Série C, na verdade ela se chama A3,  que mesmo caindo para a terceirona o cruzeiro ainda tem 4 brasileiros, 6 copas do Brasil, 9 carnês do baú, 2 canetas bic azul, 24 pares de chuteira, uma dívida com o babalorixá, 5 barracas de coco na orla da Pampulha e ainda o Fábio no gol.

Já é chegada a hora de assumir o discurso da Série B com dignidade e jogar futebol de adulto, pois é preciso amar a pelota como se não houvesse amanhã, porque se você parar pra pensar na verdade não há. Verdade irrefutável que só o alento poético de Renato Russo poderia trazer para o time azul celeste.

É possível que a maior necessidade do time, nesse momento difícil, não seja um novo treinador ou alguns reforços aqui e acolá. A ajuda pode vir mesmo é de uma boa sessão de análise, terapia para abandonar o discurso ressentido, típico de quem não vive a realidade como ela é. Ou de uma boa professora de alfabetização para explicar que A é A, B é B. A querida Tia Sônia, minha primeira professora, diria assim: – é só identificar as letrinhas, gente! Simples como andar pra frente.

O fato é que sem um bom banho de veracidade, que esteja acima de qualquer discurso inflamado, o único título que o cruzeiro vai ganhar daqui pra frente será o de materializar o conceito de pós-verdade para as arquibancadas de futebol.

7 thoughts to “O Cruzeiro é o time da pós-verdade”

  1. Infelizmente o time está apostando em jogadores jovens pra subir e nos péssimos Henrique, Cabral e Regis! Time de série B tem que ser cascudo com jogadores rodados e que já mostraram resultados por onde passaram! Time bom começa pelo meio campo onde é o coração do time e no caso do Cruzeiro é o pior setor! Todis ficam preocupafos com atacantes, mas time bom tem que ter quem marque forte segure a nola no meio além de ir ao ataque e as vezes fazer gols! Portanto, tudo longe de Henrique , Cabral, Jadsom e Regis!

  2. Sou Cruzeirense e concordo plenamente com o seu texto. O primeiro post sensato e que traduz com maestria aquilo que muitos não conseguem enxergar. Aceitar sua realidade atual(série B) entregando seu melhor e tendo dignidade, isso sim é coisa de TIME GRANDE! E anseio muito pelo momento em que a ficha vai cair e o Cruzeiro vai voltar ao lugar do qual nunca deveria ter saído, não a série A(voltar a elite não vai resolver os problemas), mas ao lugar de respeito e grandeza que lhe são marcas. Negação e soberba não são bases para se reconstruir nada. Vamos acordar Cruzeiro!!!!!

  3. O cruzeirense, em sua maioria, sempre soube que time grande cai e sabe que a zoeira não vai perdoar o “incaível”, “desde 1921 na 1ª divisão”, “único gigante de Minas”; quando time cai ou não conquista um objetivo isso é inevitável: “imortal que mais morre”, “cheirinho”, “rajada”, “sobeirando”, “Mazembe”, “Tolima”, “salão de festas”, “Palmeiras não tem mundial”, “Santástica fábrica de chocolates”… No futebol, nas derrotas, o ódio se manifesta na mesma proporção que o desrespeito e a “tiração de onda” aparecem nas vitórias. A psicologia costuma dizer que “São Pedro” fala mais de si que de “São Paulo”.
    No caso do Cruzeiro, quem viveu a década perdida (1978 a 1987) sabe bem, na prática, como as coisas ficam são quando as dívidas se acumulam e o time é ruim; essas alfinetadas sobre “glórias do passado”, “arrogância”, “jogar de Adidas”, “discurso permeado de vaidade” para “tentar mudar a realidade” fazem parte de uma retórica antiga na zoeira do futebol e aconteceram com todo time grande que caiu. “Nunca mais volta se cair” revela o verdadeiro “desejo dos adversários”. Dizem que, no futebol, muitos preferem “fogo na casa do vizinho” a “uma grande conquista”. Coisas do rame-rame do futebol; faz parte.
    Não é difícil nem é preciso mostrar ao cruzeirense que o time caiu para a Série B, como você alega. Também não se deve apagar fatos históricos em razão do mal momento; se você não quer ouvir “rame-rame” é direito seu; se alguns ficam no “rame-rame” é direito deles. Adversários adoram um rótulo uns contra os outros; coisas do futebol. O que precisamos, na minha restrita visão, é identificar corretamente os falsos discursos em clubes de futebol, antes que todos cheguem na situação que o Cruzeiro chegou.
    A “pós-verdade” e os discursos que não condizem com a realidade são bem presentes no futebol e não é uma exclusividade do Cruzeiro. Ela parece ser manifesta em todos os clubes na manutenção da perversa estrutura chamada Conselho Deliberativo com órgão central da fiscalização da gestão; nas absurdas cláusulas de confidencialidade dos contratos para impedir transparência; nas cláusulas de renovação automática de vínculo e aumento de salário se forem disputadas x partidas no ano; na omissão e ocultação da realidade financeira para “preservar a instituição”, enquanto se faz todo tipo de trapaça; na insistência sistemática de ocultar atrasos salariais e realizar contratações com pagamentos de valores incompatíveis com o endividamento; no descumprimento de compromissos e responsabilidades, como impostos, adiamento de depósito de verbas trabalhistas, jeitinho brasileiro na contratação remunerada de pessoas ao arrepio do estatuto, na distribuição gratuita de ingressos e mimos a privilegiados, no financiamento sistemático de grupos de vândalos travestidos de torcedores.
    A gestão Wágner Pires de Sá deixou, segundo noticiado, um rombo 394 milhões de reais em curtíssimo espaço de tempo; a gestão Gilvan de Pinho (2012 a 2018), segundo noticiado, elevou uma dívida de 143 milhões para algo perto de 500 milhões, além de gastar no período fantásticos 1,6 bilhão de reais. Penso que aqui está o “rame-rame” que não é bom para o Cruzeiro (o Conselho Deliberativo dizia que estava tudo bem e as finanças sob controle) ; fatos históricos sobre conquistas ou no lado folclórico das bravatas é coisa de torcedor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *