A Filosofia de Sampaoli

A variação na escalação, a mudança no esquema tático, a perspectiva mobilista expressa no futebol de Jorge Sampaoli incomoda os imobilistas da bola. Existe um séquito futebolístico muito preocupado com isso, se esquecendo que o movimento é, na verdade, a mola propulsora da pelota.

O incomodo em relação às mudanças de Sampaoli dizem mais dos reclamantes do que das alterações feitas pelo técnico a cada jogo. Aliás, essa é uma lição básica de qualquer psicanálise de boteco: os sentimentos sempre falam daquele que sente. A raiva, o ciúme, a ansiedade não são “coisas” que estão passeando nos campos, atravessando ruas, dirigindo automóveis. Em outras palavras, esses sentimentos existem dentro dos sujeitos e não fora deles. Simples assim.

Para além das lições de autoajuda e de otimismo desesperado, a Pandemia nos mostrou uma coisa importante: a realidade é uma fera inconstante.  A grande surpresa se deu justamente porque, durante muito tempo, acreditávamos viver em uma realidade contínua, sem rupturas, estática, estrada reta que nos levaria, necessariamente, de um ponto ao outro. Daí vem a as moiras do destino e viram a roda gigante e tudo se destrói.

No futebol não é diferente. Lembra da frase que acompanha todo torcedor ?  – Em time que está ganhando não se mexe!. Será? Como diria o velho Aristóteles, todo pensamento filosófico nasce de um “espanto admirativo”. Ou seja, é diante dos desafios da realidade que somos levados a construir outras perguntas para respostas que não dão mais conta de descrever o tempo vivido.

Os medievais possuem uma imagem interessante para essa perspectiva existencial: a Roda da Fortuna. Cantada lindamente em Carmina Burana:

“Ó Fortuna! És como a Lua! Sempre mutante. Cresce, míngua, em seu estado variável…”

Nela, palhaços brincam com uma Roda Gigante, movimentando-a com o simples desejo de gracejar com a vida dos homens. A Deusa grega Fortuna carrega em suas mãos uma cornucópia e um timão, simbolizando a distribuição de bens e a coordenação da vida, aleatoriamente.

Pensar uma escalação em cada jogo nada mais é que a materialização desse mobilismo filosófico, a crença de que viver é movimentar-se em terrenos incertos, preparando-se para a contingência diária.

Só para constar, essa corrente de pensamento foi partilhada por Heráclito de Éfeso e sintetizada na famosa frase “nenhum homem se banha duas vezes no mesmo rio, pois tanto o rio quanto o homem já são outros”.

Sério que imagino um bom encontro entre os dois, com sotaque argentino e tudo. E para os chatos que acreditam que um filósofo e um técnico de futebol nunca conversariam, aí vai mais uma surpresa do destino… Sabe qual era o assunto mais discutido na Ágora grega? Não era política, não era filosofia, não era religião. Eles se preocupavam muito com as questões relativas aos Jogos Olímpicos. Evoluídos esses gregos, não acha?

Talvez Sampaoli e Heráclito concluíssem que a realidade se forja a partir da luta entre contrários e tentar compreender isso é fundamental para vivermos melhor. O dia se movimenta tanto que se transforma na noite, a juventude se movimento tanto que se transmuta na velhice e a vida se move tanto que vai em direção à morte, concluindo que “nenhuma escalação é a mesma, nem aquela que está com os jogadores da partida anterior, pois tanto os atletas, como o jogo, já são outros…”

Impossível parar essa brincadeira dos deuses que, como crianças, constroem castelos na areia, mesmo sabendo que as águas chegarão e levarão embora suas construções, pois nada é eterno, a não ser o próprio movimento.

É preciso acordar a cada dia com um esquema tático diferente, pois as respostas de ontem possivelmente não valerão para hoje. Isso nos faz sentir aquele frio na barriga, típico dos atleticanos antes de cada escalação. Se de um lado isso é ruim, pois nos lembra a inconstância da existência, do outro é excelente, pois nos coloca em um permanente estado de vigília, atentos e fortes, mesmo diante dos palhaços que, ao movimentarem a roda da fortuna, brincam com a ilusão dos torcedores do galo desde 1971.

8 thoughts to “A Filosofia de Sampaoli”

  1. Demais treinadores também andam mexendo demais em seus times. É só observar. O treinador do Galo não está inventando nada. Suas mexidas são mais comentadas porque é um cara famoso.

  2. Olá Renato, estou te conhecendo agora e assim com Sampaoli você também é um pensador com mobilidade e sagacidade filosófica. Li também o texto da “pós verdade” do Cruzeiro e adorei. “Como sair do atoleiro se continuas pensando que estás nas nuvens?

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