Pai, tô sujo!

Uma frase irrompeu na porta da cozinha e ecoou pelos cômodos. Mais que uma autorização para entrar em casa, aquela criança de 5 anos denunciava um mundo higienizado, controlado pela biopolítica, já denunciado por Foucault. Envolto nessa autorização jaziam indícios de uma vida construída em laboratórios: de análises biomédicas, de psicologia ou mesmo de ciência política. Nas entrelinhas desse pedido encontramos outros imperativos: é preciso limpar, separar, testar, tornar eficaz. Antes que me confundam, não faço parte dos negacionistas, ou do movimento antivacina, só penso que criança suja é pleonasmo. Aliás, a sujeira infantil deveria ser condição para entrar em casa. Penso em substituir aquelas placas “sorria, você está sendo filmado” ou “cuidado, cão bravo” por “criança aqui, só se estiver suja”.

Penso que a sujeira infantil traz um quê de felicidade. Sentimento que perdemos no mundo adulto, lócus de corpos docilizados pela rotina. Sujeira é sinal de toque, contato, experimento, momento virginal na descoberta de um mundo exterior, muitas vezes nos reintegrando àquilo que já fomos um dia.

E foi assim que na manhã de domingo descobri que a sujeira à qual meu filho se referia era, simplesmente, terra, barro, lama. Que vontade de parar em frente a ele e dizer: – meu filho, a maior parte da sujeira está escondida em gavetas, em escritórios, em relatórios, debaixo de ternos e gravatas que, de longe, exalam um cheiro de limpeza curtida em formol. Terra não é sujeira, ela é condição para a vida, reencontro com aquilo que fomos um dia, casa que nos abrigará ao término da jornada.

Em um mundo planejado, cimentado, pavimentado, relegamos à terra, ao barro, ao húmus que nos faz humanos o caráter de sujeira. Uma invenção da vida moderna que denuncia a desertificação das grandes cidades, com seus edifícios, que mais se parecem com pirâmides, tumbas habitadas em seu interior  por corpos sem vida, múmias de uma cidade planejada.

Você sabe diferenciar um bairro de um empreendimento imobiliário? Geralmente, um bairro tem um campo de terra, lugar de poeira, de vento, de barro, ambiente propício para a vida nascer e renascer. Já defendi que esses lugares deveriam ser tombados como patrimônio histórico. Assusta-me o desaparecimento dessas catedrais do futebol de várzea. Na minha humilde opinião, um bairro sem campo de terra nem poderia ser classificado com tal nome, pois lhe falta o essencial: o ba(i)rro. Melhor se chamássemos esses lugares de dormitórios.

Triste é saber que eliminamos a terra de nossas cidades na tentativa de subtrair a sujeira. Ledo engano. No asfalto, a imundície corre com mais velocidade. Além disso, a maior parte da impureza reside dentro do homem e não fora dele, já dizia a sabedoria bíblica.  Assim, é sórdido ensinar a uma criança que terra é sinal de nódoa corporal. Ela é o contrário disso. Ela é comunhão, reintegração ao nosso estado primordial, condição aberta à construção da existência.

Naquela manhã tomei uma decisão: colocarei as chuteiras sujas, as botas e as roupas enlameadas em um prego na parede, como uma obra de arte. Afinal, dizem que a palavra felicidade vem do latim félix, que significa terra fértil. Talvez assim, serei sempre lembrado de que a felicidade também vem acompanhada de um bocado de terra.

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