Evangelho de Mateus, o Motoboy

Bendito seja Deus que fez o sol para todos, maldito seja o destino que fez a sombra para poucos. Eis que Mateus se levanta com a oração costumeira, matinal. Sem elucubrações teológicas a respeito do tempo, ele calça suas botas, toma um ralo café, come o pão com manteiga e se veste com a esperança que, para maioria dos brasileiros, desperta antes do amanhecer.

Sonhava em ser jogador de futebol, mas nasceu em um país que é um túmulo de talentos. Não dá pra sonhar quando a realidade, a todo momento, vem lembrar do vencimento de cada prestação. Não dá para arriscar, afinal ele não é acionista. Não pode se dar ao luxo de passar a vida inteira fazendo apostas com o trabalho alheio. Ao contrário, ele é um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.

Por isso, é preciso ir em busca do alimento sagrado, pois as bocas são tantas e haja multiplicação de pães e peixes para sustentar todas. Sobe na moto e dá a partida, calcula a relação entre o combustível e as possíveis rotas do dia, com o desejo de caminhar sobre as águas. Seria ótimo! – Pensa o discípulo – Pois assim evitaria os engarrafamentos e os desrespeitos de sempre.

Enquanto alguns se salvam com máscara, álcool gel e ficando em casa, Mateus, heroicamente, vai ganhar seu sustento, arriscando a vida em um trânsito letal, que mata como guerra, tendo que enfrentar um inimigo invisível, que pode atacá-lo em cada entrega feita.

Em seu trajeto ele encontra com os fariseus contemporâneos, sepulcros caiados que veem o motorista de aplicativo como exemplo de empreendedorismo. Eles também proclamam o fim das leis trabalhistas, a capitalização da previdência e a privatização do SUS. Herdaram a fortuna do papai, mas não herdarão a eternidade – pensa Mateus… O discípulo fiel ainda faz uma exortação retirada do livro sagrado: – mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus! Incrível a capacidade que o Capitalismo tem de dar poder a boçais.

Mateus vive em um país que ainda guarda os resquícios da escravidão e, com ela, a desvalorização do trabalho. Os rentistas e vendilhões do templo acham normal e necessário ter sempre alguém arrumando sua própria cama, passando sua própria roupa, levando sua bandeja no shopping. Quase sempre homens negros e mulheres negras, vestidos com roupas brancas. Desde Adão alguns podem ficar no Éden, no paraíso das delícias, gozando de uma condição infantil, ausente de preocupações materiais, buscando deleites de toda ordem. Outros, já foram expulsos dessa situação e têm que “ganhar o pão com o suor do próprio rosto”.

Como é possível falar em igualdade ou democracia quando metade da população brasileira vive com menos de um salário mínimo por mês? Como pensar em meritocracia ou liberdade econômica com 13 milhões de pessoas desempregadas? Essas e outras indagações pegam carona na moto de Mateus, quando, em sua ultima batalha, ele se vê de cara com o Cão, o Capiroto, o Coisa-Ruim, o Pai da Mentira, o Maldito, e contra todos aqueles que acreditam no fim da dignidade, exorciza: – moleque é quem enriquece sem trabalhar, quem come sem plantar, quem vive do suor alheio. 

Eis que, no meio da batalha, uma voz troveja do alto: Mateus, meu filho amado, a quem pus o meu agrado, avise aos homens que não ajuntem tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os destroem. Mas tome cuidado! Pois você vai encontrar pessoas tacanhas, de espírito limitado, pobres, mas tão pobres, que só possuem o dinheiro.

4 thoughts to “Evangelho de Mateus, o Motoboy”

  1. Excelente e lucida sua analogia com a palavra de Deus, tratando de um assunto recorrente nós dias de hoje. Parabéns e continue nos brindando com boas leituras.

  2. Infelizmente o Brasil é muito pouco industrializado, são poucos empregos disponíveis. imagina se tido afortunado dispensasse seus empregados domésticos, porteiros, recolhedor de bandeja nos shoppings centers, frentistas de postos, moto Boys.
    Já imaginou o estrago.
    Então não podemos culpar os patrões e sim um país de governantes podres, haja visto saneamento apenas para metade dos brasileiros.
    Isso fere a carne, moradias precárias, ônibus lotado, sistema de saúde precário. Trabalho é trabalho, é digno. Humilhações acontecesse em todas áreas de trabalho. Inclusive entre cargos diferentes.
    Longa conversa amigo.
    A realidade não tem lado. A verdade não tem lado. Agora opinião, sim e bastante.

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