O torcedor mineiro é feliz?

O futebol retorna em Minas Gerais. É difícil dizer se devemos comemorar ou não. Parece a mesma sensação de quando vamos às compras no supermercado ou na farmácia. Sabemos que é preciso, mas o sentimento de estar fazendo algo errado é como uma sombra que nos acompanha durante todo o trajeto. Talvez o maior símbolo desse retorno seja o totem-torcedor, invenção sórdida, cópia horrenda, mais uma bizarrice dessa praga chamada de futebol moderno, representação clássica de uma tentativa de dizer que as coisas estão indo bem, quando na verdade não estão.

Chego a me perguntar se não seria melhor cancelar o futebol em 2020.  Será que não nos privaria de um mal maior? O cruzeiro amargará uma Série B em cacos, com direito a pedir a moedinha do árbitro, como doação, após o cara ou coroa. O América é o verdadeiro Fusca, que consegue embalar na ladeira e arranca de segunda, mesmo assim, sempre cola o platinado e não sobe mais. O Atlético, não nos esqueçamos, deixou a Copa do Brasil de forma vexatória para o grande Afogados da Ingazeira, além de eliminado na primeira fase da Sul-Americana, mesmo assim monta um time que provoca calafrios no torcedor, lembrando a famigerada SeleGalo.

A maior prova de que a vida não vai bem é quando precisamos de algo (ou alguém) pior para justificar nossa superioridade. Mire e veja: é como tentar empurrar uma sopa de jiló em uma criança, com a justificativa de que é necessário comer pois no mundo muitos passam fome. Não é uma questão de escolha feliz, mas pelo princípio do mal menor. Não sei se podemos chamar isso de alegria. Depender da desgraça alheia para justificar o sabor da existência é, no mínimo, deprimente. Pense na estranheza disso. Você só é feliz porque o outro não é? A vida só vale a pena porque outros estão morrendo? O emprego só deve ser valorizado porque milhares estão sem ele?  O Governo só é bom porque o anterior era pior?

Tudo isso é sinal de uma vida ressentida, privada de potência, carente de afirmação, como diria Nietzsche. Muleta que usamos para justificar nossa infelicidade a partir da tristeza maior do outro. No futebol mineiro, esse tipo de ressentimento tem sido constante. A alegria do atleticano é a série B cruzeirense, por sua vez, a felicidade do torcedor azul é a não conquista do segundo título nacional por parte do Galo, nessa mesma esteira, a realização do Americano é que, em 2020, ele vai ter clássico na segunda divisão!

Há muito tempo experimentamos um futebol reativo, que só se afirma a partir da negação. Mostra clássica de que algo não vai bem nas alterosas. Talvez a síntese disso tudo seja mesmo o totem-torcedor, representação máxima de um futebol sem paixão, que se move ao barulho artificial das caixas de som pelos Estádios, que se alegra pelas derrotas, pelas quedas, pelos títulos não conquistados, um futebol negativo.

Talvez seja mesmo verdade que o melhor refresco é a pimenta nos olhos dos outros. Mas ainda cabe a pergunta: chamamos isso de felicidade ou sadismo?

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