Uma homenagem ao melhor amigo do homem.

É comum que, em tempos áridos, desenvolvamos uma sensibilidade para algumas questões existenciais. Por isso creio, de forma convicta e fundamentada, que toda virtude só cresce em terreno contrário a ela. A excelência é inimiga da facilidade. Antes que me acusem de plágio, postura comum de certos ministros em certos governos, já digo que essa ideia não é minha, ela é de Montaigne, filósofo francês do Sec. XVI.

Por isso que, a despeito do momento em que vivemos, de distanciamento humano, quero falar de uma virtude, que, na verdade, pode ser considerada uma forma de amor: a amizade. Segundo Aristóteles, filósofo grego, essa é uma virtude capaz de levar à perfeição da alma, pois em sua forma mais apurada ela é um querer bem por si mesmo, e não em função de outra coisa. Trocando em miúdos: a amizade, quando não está fundamentada no interesse ou na utilidade, nos coloca em outro nível de humanidade. Mas cuidado! Segundo o próprio pensador essa é uma virtude rara. Não é possível que ela seja compartilhada com muitos. Sei que isso soa elitismo. Paciência… Os gregos eram assim.

Mais ainda, a amizade é uma virtude que se fortalece justamente em momentos difíceis. Aquele que vai sozinho ao estádio é alguém que já começa o jogo perdendo. Sei que lá encontramos várias pessoas, unidas pelo mesmo ideal, mas compartilhar a experiência da partida com um amigo é outro nível! Por isso que, em tempos de isolamento social, quero fazer uma ode à amizade! Mas calma… Alto lá… Essa amizade é um pouco diferente, pois não se trata de uma relação entre dois humanos. Afinal, essa virtude não está encarcerada em convenções antropocêntricas.

Minha história de amizade começou um pouco antes de um jogo de futebol. Ao chegar no Estádio vi aquele que (mal sabia) me acompanharia nos caminhos tortuosos da vida. Ele estava lá, na calçada, pedindo pelo toque. Ao levar minha mão até seu pequeno corpo, senti que uma bela história tinha se iniciado.

Hoje, sei que esse tipo de amizade sempre foi presente em minha família. Sei lá… acho que temos algo ancestral nessa relação. Lembro de meu avô, típico matuto, andando pelo quintal e sendo acompanhado por esse que é, sem dúvida, o melhor amigo do homem. Também tenho comigo a imagem de meu pai que, ao dormir, faz questão que ele fique ao lado da cama, como que se fosse vigiar seu sono. E ele fica lá, noite adentro, como se também descansasse ao lado de seu companheiro.

Acho que somos assim. No silêncio dos afetos ouvimos sua linguagem, que é sempre nova, autêntica, límpida, cristalina. No meio do dia conturbado basta se aproximar dele para que tudo vire uma bela manhã de domingo. Chego a pensar que é um pecado mortal o fato de ele não ser relatado no texto bíblico, ao lado de Adão, quando este passeava nu pelo Jardim das Delícias, certamente na companhia desse inseparável amigo.

Muitas vezes, ao atravessar a cozinha de madrugada vejo ele lá, estático, como se dependesse só de mim para sua vida despertar. Este sim é companheiro de auroras! Não preciso falar nada, basta tocá-lo. Nossa comunicação é instantânea. Sua companhia se mistura ao cheiro de café e, nesse momento, não há isolamento social.

Mesmo sem internet, instalado nos rincões do mundo, afastado de tudo e de todos, tenho a certeza de estar com um grande e velho amigo. Por isso, não poderia deixar de homenagear aquele que é companheiro de todos os jogos, parceiro inseparável na luta diária, que me ajuda a sobreviver na frieza dos tempos de Hanghout, google, teams, zoom, loom, podcast, cloud computing e cookies. Sei que você não pode ler esse texto, mas saiba que ele é para você, amigo inseparável: meu radinho de pilha

4 thoughts to “Uma homenagem ao melhor amigo do homem.”

  1. Hehehehe, muito legal! E eu pensando em cachorro o tempo todo… Também sei o valor da amizade de um radinho de pilha, que alegrou meus dias quando trabalhei no Iraque e no Congo, ouvindo rádios brasileiras. A mais nítida era a Rádio Nacional de Manaus, em ondas curtas. À noite, no deserto iraquiano, a gente a ouvia como se ela estivesse na cidade ao lado. Belas lembranças…

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