Um brinde ao ceticismo!

 

Nunca gostei de torcedor otimista, pois geralmente é gente desprovida de crítica, ingênua, no sentido mais infantil da palavra. Não são suscetíveis às análises criteriosas e às reflexões morais. Gente otimista é difícil de tolerar. Sabe aquele sujeito que acha que a primeira vitória do ano já é um caminho para o título? Pois é… Todo otimista já pensou em consertar o mundo por meio das hashtags.

Na outra ponta também encontramos os pessimistas. Esses já são intragáveis. Por cima deles sobrevoa uma nuvem de asco. Se os otimistas são bobos, os pessimistas são chatos. Torcedor pessimista é uma contradição em termos, pois ele sempre acha que vai perder. Geralmente gente pessimista é medrosa, pois tenta se preparar para a vida esperando sempre o pior. Vejo nisso uma grande dificuldade em lidar com as frustrações.

Por isso que, em tempos como esse que estamos vivendo, nada melhor do que uma boa dose de ceticismo. Alto lá pra quem pensa que essa é uma posição em cima do muro. Não é mesmo! Otimistas e pessimistas são o tensionamento da corda. São certezas, mas com sinal trocado. O ceticismo não… Ele é um lançar-se ao abismo e, na iminência da queda, como já dizia Nietzsche, aproveitar parar cair dançando! O otimista acredita na ilusão da salvação e o pessimista não aproveita a breve sensação de voar. Enquanto isso, o cético enfrenta a queda como experiência única, irrepetível, sem se importar com o resultado.

Antes de cada partida gosto de usar um bom uniforme Cético. Seja o que será! venha o que vier! Pois todo ideal é uma forma de fugir do real. Nada será pior, já que não há esperança do melhoramento. Por isso que cada jogo é único, revestido de uma experiência que nos conduz à queda no abismo da incerteza, onde otimistas e pessimistas caem como criancinhas indefesas, gritando pela mãe. Já os céticos aproveitam a queda para uma dança nova e única. Bela metáfora da vida, não acha?

Tempos sombrios como esse em que vivemos ressuscitam esses estereótipos. De um lado, gente que acha que vamos sair melhores e que tudo isso nos fará pessoas diferentes. Nesse sonho dourado, superaremos a pandemia e no final daremos as mãos, cantando: we are the world, we are the children. Enfim, pessoas que criam um ideal por não suportarem o real. Nesse momento ainda temos um complicador, pois temos o otimista de wi-fi, um ser que transpôs toda a esperança idílica de Deus para o mundo virtual, acreditando no melhoramento moral da humanidade através da tecnocracia. Se esqueceram que atrás de toda máquina há um ser humano, e atrás de todo ser humano há uma (ou várias) perversidade. Muitas vezes a Big Data só serve para potencializar o mal universal que, ao contrário do bem, não cochila nunca. Do outro lado, o grupo dos pessimistas. Essa galera ressentida que saiu da ilusão do paraíso para acreditar em outra, da mesma natureza, o inferno. Também não estou com esses paranoicos que aproveitam do momento para justificar a hipocondria ou para disseminar que o fim está próximo. Há um certo gozo no pessimismo que cresce com o aumento das mortes. Penso que também não é por aí… Não compartilho da crença de que é o fim ou que Deus, ou alguma outra divindade, enviou o vírus para limpar a humanidade. Longe de mim esse masoquismo.

Por isso que estou fechado com os Céticos, pensamento que deveria ser oficializado como filosofia de vida de todo torcedor. O cético nada no rio da incerteza, atira com a arma da dúvida e dança na pista da indeterminação vital. Pois não é isso que é viver? Um grande ponto de interrogação colocado à nossa frente? Essa corrente filosófica nasceu da Grécia antiga e disputa com os Cínicos e os Estoicos a chancela de escola de maior popularidade do mundo antigo. Para eles a dúvida é a mãe de todo o conhecimento e é a partir dela que podemos evitar o sofrimento. Basta lembrar que Descartes, o pai da modernidade, fez da dúvida metódica o ponto de partida do próprio pensamento científico.

Sempre que ouço (ou leio) alguém falando que o mundo pós-pandemia gerará pessoas mais solidárias ou mais compreensivas, tendo ao ceticismo. Sempre que vejo alguém afirmando que agora vai! Que o trabalho ganhará novo sentido e que teremos mais tempo para nos dedicar ao que importa, tenho vontade de oferecer uma dose dupla de ceticismo a esse ser descolado da realidade. Será mesmo? Não que seja o fim do mundo e, de fato, acho que ainda não será, mas criar a ilusão de que seremos melhores no chamado “novo normal” é como acreditar que, além da vacina para conter o vírus, também criaremos uma outra para arrancar toda a perversidade humana. Será?

Em nosso país isso talvez fique mais evidente. Agora escancaramos aquilo que nos define enquanto povo: o homem perverso. Sérgio Buarque de Holanda que me desculpe, mas não penso mais no homem cordial, pois ele ainda se define por uma lei: a do coração. O Homem Perverso, estrutura típica do brasileiro, é um sujeito que se vê além da lei, que a rejeita pois sabe que ela não é feita por ele (e nem para ele), que a desconsidera porque tem a certeza de que ela não o afetará. O homem perverso não sente culpa, não sente raiva, não sente dor, ele só busca o prazer, a satisfação imediata de seus desejos. Deve ser por isso que não é fácil falar em povo brasileiro, pois é muito difícil constituir uma coletividade sob a égide dessa estrutura psíquica.

Assim, continuo firme em minha dúvida cética: será que seremos diferentes daquilo que realmente somos? A tecnologia, a mesma utilizada para acelerar os trens em Auschwitz, para espalhar fake News ou para a prática do ciberbullyng, será o elemento emancipador pós-pandemia? Será que as pessoas olharão para as outras com mais empatia? A paciência e a cooperação ocuparão o lugar do just in time e da competição?

 

Sei não… Como bom torcedor que sou, entre a ilusão e o derrotismo, só peço uma coisa: Garçom, uma boa dose de ceticismo, por favor!

4 thoughts to “Um brinde ao ceticismo!”

  1. Nunca li um texto que me representasse tanto. Se fosse bom com a exposição de ideias na forma escrita , seriam essas as minhas palavras

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