Vai trabalhar!

Sabemos, há tempos, que os sonhos não são mensagens divinas ou premonições astrais. Tudo bem que era até mais místico, mais romântico, pensar neles como um anúncio. Lembro de minha mãe, jogadora assídua do Bicho. Para ela – e para tantas pessoas do Brasil – o sonho era um desafio para transformar quimeras em números. E era batata! Sonhou, jogou, ganhou! Essas visões, hoje, são fantasmas de um tempo que não existe mais.

A realidade é mais cruel (mais amarga, será?), pois sabemos que os sonhos e os pesadelos fazem parte de algo latente. Aprendi com Freud que para toda imagem manifestada existe algo não manifestado. Temos que descobrir isso. Tarefa solitária, individual, que só o próprio sonhador pode fazer. Tudo bem que contamos com algumas ajudas. Mas o caminho do sonho só é refeito por quem foi capaz de sonhá-lo. Como a esfinge de Tebas, ele nos convoca: – decifra-me ou devoro-te!

Alguns sonhos são arquétipos da humanidade. Quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?  Atrás desse sonho surge a latência da saga do herói, tão antiga, permeando nosso inconsciente… Menino pobre, da periferia, galgando novos espaços e sendo aclamado por todos em Estádio lotado! O problema é que sempre na hora de levantar a taça o despertador tocava. Era a hora da realidade… Nua e crua, desnudando a semana sem romantismos. Como diria Paulinho, o da Viola: – mas é preciso viver, e viver não é brincadeira não!

Essa noite foi diferente. Não sonhei com a bola nos pés. Sonhei que era presidente do clube, dirigindo uma quantidade enorme de pessoas. De jogadores a investidores, todos agora dependiam de mim. Tinha vencido a eleição de forma fácil, pois a gestão anterior não tinha feito um bom trabalho, deixando certos rombos e denúncias de corrupção, envolvendo um grande projeto de poder. A eleição foi tão fácil que mesmo falando que eu não entendia de futebol eu venci!

Assumi o cargo e quando a coisa não ia bem era só atacar o rival. Falei para meus comparsas, digo, parceiros de trabalho: – não precisamos criar nada, tá ok? Só precisamos negar tudo! E vamos começar negando esse negócio de bola redonda. Isso é coisa de latino-americano! Vamos tentar aquela outra bola, a AMERICANA! Ela é mais plana! Coisa de gente forte, máscula! Jogo sem mi mi mi! 

Só que uma coisa inesperada aconteceu. Depois de termos desvalorizado toda a equipe técnica, falando que esse negócio de conhecimento era desnecessário para o futebol, surgiu uma gripezinha. Tentei emplacar essa, mas a realidade venceu a fantasia. Daí surgiu a necessidade de uma inovação no marketing estratégico: Era preciso falar com todos que a doença não era tão forte assim. Era preciso mostrar que isso era uma grande frescura, pensada por algum grupo maligno que não queria que entrássemos em campo. Afinal de contas, quem tem físico de atleta não morre!

O problema começou quando os comandados perceberam as incoerências.  Que não queriam trabalhar para alguém que não valorizava o trabalho. Tudo bem que já tinha falado com eles que ia ser um dirigente de futebol sem entender de assuntos futebolísticos… O problema começou quando descobriram que o comandante, que mandava todos ao trabalho até completarem, no mínimo, 65 anos, se aposentou, saudável, aos 33.

Ainda bem que consegui esconder deles que, enquanto reforçava a ideia de que o trabalho é um purificador moral, tese apontada por Weber em sua Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, planejava churrasco em casa e passava o dia inteiro nas redes sociais. Quando ficava entediado ia pra frente de casa discutir alguém ou passear de jet-ski com segurança a tira colo.

Até criei um lema: o trabalho é liberdade! Só não lancei oficialmente porque o pessoal das Ciências Humanas, com esse gosto mórbido de ficar arrastando caixões com defuntos póstumos, falou que isso aí já foi usado por algum dirigente europeu.

Tentei amenizar, falando que criança tinha que trabalhar mesmo, tá ok? Faz parte da educação! Mas aí descobriram que meus filhinhos sempre tiveram vida boa, bebendo achocolatado de caixinha e comendo pão com leite condensado, tendo um passado trabalhista meio duvidoso. Essa gente maldosa só esqueceu de falar que os meninos construíram suas carreiras com muito mérito, usando meu sobrenome.

Acordei, assustado, desse pesadelo inóspito me lembrando da cena derradeira: ia subir no palanque presidencial quando a torcida, insatisfeita, me espreitava no canto, cantando a música do Chico:

Vai trabalhar, vagabundo
Vai trabalhar, criatura
Deus permite a todo mundo
Uma loucura
Passa o domingo em família
Segunda-feira beleza
Embarca com alegria
Na correnteza

Como naqueles tempos de criança acordei frustrado. Nesse caso porque não deu tempo de renunciar.

Morfeu me deve essa!

 

 

 

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