O que não preciso para ser feliz?

Dizem que Sócrates (falo do filósofo ateniense, não do jogador) certa vez passeava pelo mercado de Atenas, vislumbrando uma série de quinquilharias suntuosas,  ostentadas pela elite local, quando alguns cidadãos de bem (e de bens) apareceram e perguntaram: – o que fazes aqui, ó Sócrates? Não era você que sempre criticava o exibicionismo ateniense? Parece que Sócrates, com o olhar irônico que lhe era peculiar, teria respondido: – estou apenas olhando quantas coisas eu não preciso para ser feliz.

Nunca saberemos se realmente foi assim. Se a história aconteceu de outra forma e foi romanceada por algum aluno apaixonado pela imagem de Sócrates, não conseguiremos responder. Mas o fato é que ela nos coloca diante de uma grande questão filosófica,  encoberta pela resposta socrática. Talvez a felicidade consista muito mais em “nãos” do que em “sim”.

Precisar é um verbo estranho para quem busca a felicidade. Quem precisa de algo sente é a falta, e a nossa busca não pode ser por uma ausência. Afinal, toda necessidade tem a ver com o desejo, e muitas vezes são eles que nos afastam da vida boa. Por isso que os gregos do mercado achavam que compensariam suas buscas pessoais adquirindo coisas e artefatos. Já sei… Você deve estar pensando assim: que povo atrasado! Gente fútil, né? Pois é… Já pensou que em algum momento da história um grupo de pessoas acreditou que ia satisfazer seus desejos consumindo objetos?  Eles realmente acreditavam que isso poderia ser chamado de felicidade. Ufa… ainda bem que evoluímos, não acha?

Quando era criança (e acho que isso vale até hoje), aquele amigo que chegava com o uniforme novo, completo, limpo, chuteira de marca com cheiro de loja, caneleira colorida e cheio de firulas era sinônimo de jogador ruim. Tínhamos certeza! Nosso radar para pernas-de-pau nunca falhava! Ao contrário, quem era bom mesmo não precisava de nada, às vezes nem de calçado, ele tinha apenas de seu próprio corpo como instrumento de excelência. Creio que também acontece assim em relação à felicidade: existem os habilidosos e os pernetas. Discernir isso é fundamental na busca pela vida feliz. Pense no escultor que, ao construir uma estátua, vai apenas retirando os excessos até a aparecer a forma perfeita.  Na condição ética de construtores de nós mesmos, tarefa primeira da filosofia socrática, deveríamos gastar mais tempo retirando os excessos, que nos afastam de quem verdadeiramente somos, do que nos preenchendo de vazios, que nos levam para onde não sabemos.

Engraçado olhar para esse momento de recolhimento e notar que falamos mais sobre o que vamos precisar do que aquilo que não vamos mais precisar. Os profetas do apocalipse logo clamam: precisamos de mais TV com novos canais, de novos políticos com as velhas ideologias, de computadores mais avançados para assistir às lives sertanejas, de mudar o mindset para se engajar em empreendedorismos galáticos, de nos preparar para um tempo com novas relações de trabalho, se especializando em ferramentas virtuais que resolverão todos os problemas da humanidade. Além disso, é preciso assistir a todas as reportagens legais, seguir os podcasts que debatem o momento e discutir a relação com ajuda de tutoriais. Tudo isso pensando em uma educação mais pragmática e menos teórica. Parece que a humanidade acabou de nascer, estamos nus e vamos precisar de muitas coisas que ainda não temos. E acabamos levando para o universo doméstico a reprodução da vida pendular que encontramos nos shoppings e outras praças de consumo. Uma vida que oscila entre o desejo e o tédio. Mas, espera aí! Alguém falou do que não vamos mais precisar? Daquilo que podemos deixar para trás? Das coisas e dos poderes que nos colocaram, justamente, nessa situação?

Lembremos do gato de Alice: para quem não sabe onde ir, qualquer caminho serve. Peço desculpas ao poeta, mas distraídos não venceremos! Toda vez que a razão dorme, monstros noturnos são produzidos. Por isso, caminhe desperto, pois o alerta socrático continua: cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais! Talvez você descubra que a felicidade não é um produto do qual precisamos, mas um desprendimento no qual nos exercitamos.

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