Alienação: a culpa é do futebol?

Diante de uma crise a saída mais simples é culpar alguém. Esse sentimento nos persegue desde a catequização judaico-cristã. Admiro o pensamento grego clássico, entre outras coisas, justamente porque ele desconhece (ou nega) esse afeto. A culpa é para os ressentidos, ou para os amargurados. Como perguntaria o velho Freud, pai da Psicanálise: – qual é sua parcela de responsabilidade na desordem que você aponta? Verdade cruel que acompanha todo cidadão bem intencionado que pretende consertar o mundo apontando quem está errado.

Teimam em colocar a culpa no esporte, mais especificamente no futebol, pela suposta “alienação do povo brasileiro”. Vídeos circulam com senhores bem barbeados, envoltos em santidade moral, agraciados por uma velhice tranquila devido ao pouco esforço corporal, dizendo que “se o povo brasileiro gastasse mais tempo se interessando por política do que por futebol nosso país seria outro”. As pessoas que pensam dessa forma podem ser colocadas, no mínimo, em duas categorias: os ressentidos/amargurados, que perderam o prazer pela vida em algum momento da infância ou os aristocratas, filhos de uma elite decadente que acredita que o ócio é privilégio de poucos.

Nem preciso mostrar que o esporte era um dos assuntos mais discutidos na Ágora Grega. A praça pública, berço da democracia, dedicava a ele um tempo considerável. Os inventores das Olimpíadas acreditavam que o esporte era capaz de elevar as almas e, de forma democrática, deveria ser assunto da Pólis.  Só há progresso porque existe competição… Se ela for organizada por times, torcida, dedicação, melhor ainda! Stephen Hawking gastou grande parte de seu tempo dando pitacos sobre como a seleção inglesa poderia ser campeã mundial. Ryan Boyko, pesquisador de Harvard, assistiu mais de cinco mil jogos para constatar que existe uma relação intrínseca entre a força da torcida e o gol. Durante um ano, 200 alunos que cursavam a sexta série e praticavam atividades esportivas como futebol foram acompanhados por pesquisadores da Universidade de Michigan. No fim, veio a constatação: estes estudantes tiveram notas 10% acima da média dos alunos em matérias como matemática, ciências e inglês.

Puxo a brasa para a minha sardinha: o futebol é um lugar privilegiado de aprendizagem filosófica. Quer entender Aristóteles e a virtude do meio-termo? Tente compreender a organização de um meio-de-campo. Já ouviu falar de Nietzsche e sua vontade de potência? Experimente entrar no Estádio 5 minutos antes da partida decisiva e saberá perfeitamente o conceito exposto pelo pensador alemão. Quer saber sobre Durkheim e o Fato Social? Passe um dia em uma torcida. Já ouviu falar de Sócrates e seu método maiêutico? Observe dois apaixonados por futebol discutindo. Piaget e o desenvolvimento infantil? Vá explicando para uma criança como as regras do jogo funcionam. Conhece Maquiavel? A teoria do pai da ciência política é comprovada em cada “cera” feita pelos jogadores ao redor do mundo.

O que aliena de verdade é a má distribuição de renda e a ideia de que o ócio é privilégio de uma elite que, enquanto brinca de Poker, aposta em capital especulativo e dedica horas aos jogos online, critica um povo que vê no esporte a chance de ascensão social e de alegria após o trabalho, quase sempre esvaziado de sentido. O neg-ócio, como negação do tempo livre, como anulação da criatividade, distancia o sujeito de uma vida mais feliz. E, como diria Belchior: a felicidade é uma arma quente!  O cidadão bem intencionado que crítica o futebol não tem medo da alienação. No fundo ele tem medo é da felicidade.

One thought to “Alienação: a culpa é do futebol?”

  1. O futebol DEVERIA ser lazer para os dirigentes, para os jogadores e para população em geral. Deveria ser uma brincadeira saudável, sem muita malícia. O futebol esta infestado de CORRUPÇÃO, JOGO DE INTERESSE POLÍTICO E ECONÔMICO, é sinônimo de desigualdade social. Má exemplo para a juventude. Jogadores promovem orgias e estimula o consumismo.

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