O Jogo Democrático

A democracia é um jogo. Nesse sistema político as regras devem ser definidas, principalmente, por uma ética do discurso. Essa perspectiva moral garante a construção transparente de regras, ao mesmo tempo em que sustenta o direito à fala. Essa postura não se constrói em razão da força, mas pela força da razão. É isso que nos ensina o Filósofo, ainda vivo, Jürgen Habermas. Grande defensor dos direitos humanos, ele nos apresenta a palavra como condição fundamental para a organização política. É por ela que pensamos, observamos, discordamos, ponderamos, exortamos e, até mesmo, xingamos.

Digo mais, a Democracia é como um jogo de futebol. Não existe um time que se organiza só pela esquerda, da mesma forma que não é possível construir um esquema tático vencedor apenas pela direita. Às vezes é o centrão, o meio de campo, que irá segurar a cadência do jogo, escolhendo qual o melhor lado do campo para iniciar a jogada. E assim vamos nós, ora por um lado, ora pelo outro. Alguns momentos exigem avanço, construindo um esquema com mais atacantes. Outras situações nos pedem calma e defesa, daí é garantir o que já foi conquistado com muito suor e torcer para não perder mais nada. Às vezes o time entra só para cumprir tabela. Outras vezes entra para decidir. Existem épocas com grandes arrecadações e é possível agradar muita gente, infelizmente também tem mala com dinheiro para lá e para cá. Momentos de austeridade, onde há choro e ranger de dentes. Mas o bonito é que isso tudo só acontece porque existe O JOGO.

Não nos esqueçamos do torcedor, esse elemento fundamental da partida. Jogar sem ele é uma forma de punição. Sabemos que uma torcida bem orquestrada, consciente de seu papel, é capaz de empurrar o time, de ajudá-lo nos momentos mais críticos. Alguns são apenas torcedores de temporada e não se envolvem com inteireza. Agem pela empolgação do momento. Existem também os tradicionais, que se organizam e se dedicam, manifestando, de peito aberto, seus sonhos e suas crenças. No futebol também encontramos aqueles mais exaltados, que precisam de ajuda para se conter. Mas uma coisa é certa: não existe futebol sem  LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

Outro fator relevante é a pluralidade de times. A cidade é multicor e todos têm seu lugar. Nem a Copa del Rey é apenas do Rei – parece desnecessário afirmar isso, mas é preciso explicar algumas coisas para os monarquistas. Portanto, o jogo só acontece porque existem times (na pluralidade) e não apenas time (no singular). Assim, a disputa, elemento motivador e benéfico da condição humana, ganha camisas e símbolos, mascotes e heróis, hinos e cantos, louvando as vitórias, as classificações, chorando os rebaixamentos e afirmando a resiliência frente às derrotas. Diante disso percebemos que o jogo só acontece na PLURALIDADE.

Por isso que pessoas  excitadas ao vislumbre de canhões eretos e homens fardados não fazem parte do jogo democrático. Simplesmente porque elas não querem jogar. Talvez porque não entendam que não é legítimo se manifestar contra o jogo utilizando as regras do próprio jogo. Não é inteligente pedir a restrição da liberdade e da palavra com o uso livre da própria palavra. No mínimo devem sofrer de uma grave ausência: a capacidade cognitiva qualificada. Essa é uma atitude típica de quem desconhece a diferença entre contestação e destruição. Por isso que toda ditadura é jogo de um time só, pois não existem adversários a serem vencidos, mas sim inimigos a serem derrotados.

Sou mais o jogo democrático das ruas, com pé ralando em paralelepípedo, trave de chinelo, camisa rasgada e tudo mais! Gosto dos desafios explícitos ao time da rua de cima, valendo caixa de refrigerante e pacote de figurinhas. Muitas vezes vencíamos, outras tantas perdíamos. Mas o jogo continuava, intenso e belo, sempre terminando com gosto de quero mais, independentemente do resultado. E se acaso chegasse algum desavisado, querendo levar a bola debaixo do braço, essa marca explícita de gente ressentida com propensão à insociabilidade, deixávamos bem claro que ninguém termina o jogo, porque sendo de todos ele não é propriedade de ninguém.

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