O Futebol tem razões que a própria razão desconhece

Até que ponto os números definem a realidade? Essa é uma discussão autenticamente filosófica. Medir, quantificar, comparar. Herança de um pensamento moderno, cartesiano, que tudo quer prever, assimilar, formatar. Criamos uma linguagem matemático-científica para limitar a realidade, fazendo com que ela caiba na compreensão humana. No entanto, sabemos que o mar é maior. E o ser humano é apenas um barco à deriva em meio a esse oceano de afetos. Há espaços onde nossa rede conceitual não alcança. Para essas coisas temos um outro filósofo moderno: Blaise Pascal. Para ele “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Quantificar a paixão do torcedor é tarefa infértil. Cuidado! Essa ilusão pode caminhar, lado a lado, ao terraplanismo e outros devaneios de toda ordem. A contagem de títulos, a maior torcida, a maior receita, o número de sócios-torcedores, os salários astronômicos não passam de uma autópsia do futebol. Isso porque esses assuntos tratam de um futebol que já não tem mais vida. Proponho, ao contrário, uma biópsia, uma análise daquilo que deixaria o futebol mais vivo.

Será que existem mais coisas entre o céu e a terra que sonha nossa vã filosofia? Penso, logo existo? Ou existo (sinto) logo penso? O pressuposto que utilizamos para a análise da realidade é fundamental para nos guiar pela busca de sentido. Uso esse conceito nas duas extensões do termo. Sentido é tanto significado quanto orientação. Descartes nos orienta a explorar, dividir, mensurar, de forma quantitativa, tudo aquilo que vive. Já Pascal nos aponta para uma realidade que se estrutura pela compreensão interior daquilo que não se quantifica, que escapa à nossa compreensão, porque se organiza pelo mistério orgânico da vida, daquilo que nasce e que, por ser novo, não pode ser contabilizado ainda.

Portanto, o futebol é pascalino! Ele se orienta por aquilo que nos coloca diante da imensidão do indizível. A escolha por um time nunca é uma escolha racional. Uma criança não quantifica as vantagens e desvantagens de torcer para esse ou aquele clube. Ela simplesmente faz um caminho sensorial, começando pela subida na arquibancada, de onde vê o verde da grama pela primeira vez, ouve o grito apaixonado da torcida que, com paixão, expressa a força da vida se entregando a um momento que não pode ser medido por decibéis. Isso marcará seu corpo para sempre. Ainda guardo em meus olhos o primeiro jogo, a primeira experiência, os primeiros sons, sem nem ao menos saber quantos títulos, quantos torcedores, quanta dívida meu time possuía. A experiência é decisiva, a opção quantificada não.

Deve ser por isso que sempre perguntamos: – qual é seu time de coração? Se o futebol fosse cartesiano a pergunta não seria essa. Aliás, talvez nem haveria pergunta. Se usássemos Descartes para compreender o futebol colocaríamos a ciência antes da paixão. Logo cedo as crianças teriam que justificar matematicamente suas opções futebolísticas. Criaríamos técnicas para que elas apresentassem, cientificamente, as razões pelas quais é mais vantajoso torcer para determinado time. Antes da escolha haveria processo de letramento científico. Ainda bem que não é assim. Caso fosse, o futebol ficaria sem graça, sem torcedores, sem paixão.

Para finalizar, resgato um ditado popular, esse tipo de sabedoria que, com certeza, receberia o aval futebolístico de Pascal: jogo é jogado, lambari é pescado!  Com muita humildade e conhecimento de causa ele poderia completar: e o futebol é sentido, não é calculado.

Renato de Faria

4 thoughts to “O Futebol tem razões que a própria razão desconhece”

  1. Renato, parabéns pelo texto.
    Infelizmente, você coloca uma condicionante que põe toda sua linha de raciocínio a perder… ao escrever “…pode caminhar, lado a lado, ao terraplanismo e outros devaneios..” o PODE estragou tudo… tenho escrito muitas coisas sobre futebol, filosofia etc… e afirmo que, torcedor de futebol tem tudo a ver com terraplanistas (para não sugerir que estou falaciando, acrescente um “quase todo” antes de torcedor.
    PERDEMOS e esta explosão do planeta TERRA (lá vem ministro terraplanista para a saúde!) colocou a todos em estado catatônico.

  2. P. S.
    Queria escrever muito retificando ou contrapondo cada linha e parágrafo… melhor não…
    Só digo que Sandra Starling, muitos anos atrás, citou Pascal e suas “razoes” para falar da paixão que ela sentia pelo Cruzeiro e que era de uma parcela de torcedores.

  3. A vida é viver. Mesmo quando viver não faz mais sentido, atinge-se a fase consciente de que contabilizar é um exercício desprezível para quem deseja simplesmente viver.
    Viver, com avanços e tropeços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *