Escolas fechadas, educação aberta

Não nascemos humanos, nos tornamos humanos! Essa verdade encantadora é o alicerce de todo o processo educativo. Ao contrário de muitos animais, que já nascem sabendo o que fazer, nós, homens e mulheres, temos que aprender. Só assim desenvolvemos nossa condição. Uma tartaruga já sabe o caminho do mar. Com gente é diferente. É preciso aprender o caminho, é preciso ensinar a caminhar … Para Hannah Arendt, todo nascimento é um ato político. É tarefa política acolher aquele que chega, é tarefa dos que já estão instalados garantir o mundo para aqueles que ainda não sabem falar, não sabem andar, não sabem se proteger. Todos chegamos em uma condição de estrangeiros a essa terra, por isso que garantir as circunstâncias para permanência no e do mundo é a tarefa fundamental da educação.

É normal que em tempos de crise a educação seja palco de disputas. Afinal, ela é filha da crise. As concepções educativas só se renovam a partir de momentos de incerteza. Metodologias e teorias avançam na medida em que aquelas, usadas outrora, não respondem mais às necessidades do tempo. Dessa forma, a educação é produção social de vanguarda, instrumento essencial de superação.

Nesse momento, em especial, educadores e educadoras do Brasil estão, sem medir esforços, lutando para garantir que o mundo de casa se assemelhe ao mundo que nos espera lá fora, quando tudo isso passar. Educar, em tempos de incerteza, significa, ainda mais agora, a garantia do direito à esperança. Esperança de que tudo voltará ao normal, que superaremos as perdas, que sairemos fortalecidos, que iremos rever nossas concepções acerca do conhecimento, do consumo, das relações familiares e, sobretudo, do sentido da vida.

As escolas estão fechadas, mas a educação não! Ela não se encerra nunca. Educar é um gesto de abertura, aumento de possibilidades. Os desafios são grandes, as limitações mais ainda, mas em várias casas espalhadas pelo Brasil, famílias inteiras se organizam para que aqueles que chegam ao mundo tenham a certeza de que o conhecimento vencerá o obscurantismo.

A educação, essa antiga senhora que assinou a certidão de nascimento da humanidade, ainda vive porque se ressignifica a cada dia. Educadores, nesse momento, passam dias e noites se reinventando para terem, em uma semana, aquilo que lhes foi negado em mais de 500 anos: formação de qualidade, incentivo às novas metodologias, reconhecimento social e valorização do conhecimento científico. Mesmo desvalorizados, vistos como organizadores de balburdias e doutrinadores de toda ordem, lá estão eles, sentados na fileira da frente, servindo à incessante missão de ensinar.

Muitas pessoas sentem falta da Escola, isso é justo e legítimo. Eu também sinto. Sinto falta do sinal, do cheiro da cantina, do barulho ensurdecedor da vida. No mundo contemporâneo, com a rotina de trabalho de 10, 12 horas diárias, pais e mães necessitam de um lugar seguro onde possam deixar seus filhos. E a escola, como espaço físico de orientação das crianças e jovens, nos libera para ir em busca do sustento diário. No mundo do homo faber essa é uma realidade. O embaraço surge quando a escola é vista apenas como espaço-físico e não como espaço-tempo da educação.

O tormento pela falta de escola é legítimo. Mas, apesar da escola fechada, a educação está mais viva do que nunca. Ela começa todo dia naquelas famílias que se reorganizam para que todos usem o mesmo computador, nos que tentam observar as crianças e os jovens mais de perto, mesmo que pela primeira vez, nos que se atentam à biografia de aprendizagem de cada filho, nos alunos que passam a compreender que um mundo sem professores é um mundo infértil, e em toda a sociedade que se recolhe para ensinar que o direito à vida está acima de todos os outros.

Por isso que a grande aprendizagem desse tempo talvez seja a desnaturalização dos olhares cansados. Talvez aprendamos a colocar a empatia e a sensibilidade como metodologias ativas, práticas pedagógicas de excelência que nos farão perceber que a tarefa de educar não é apenas responsabilidade da escola, mas de toda a sociedade, não podendo ser vista apenas como mercadoria capitalizada em ações ou terceirizada para as grandes corporações. Afinal, como nos diz a própria Hannah Arendt, a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele.

2 thoughts to “Escolas fechadas, educação aberta”

  1. Parabéns pelo texto, Sr Renato. Sou enfermeira, mas estou acompanhando a árdua luta dos educadores, para não deixar, nossas crianças, jovens e adultos, sem o seu aprendizado. Sou fã número zero da boa educação e dos bons e generosos educadores. Deve estar sendo muito difícil, nesse momento, para muitos pais. O mundo os obriga a se verem longe de casa, sem poder acompanhar, diariamente e com frequência, as atividades de seus filhos. Poderem estar, nesse momento, fazendo isso, deve ao mesmo tempo, ser gratificante e também, cansativo. Muita coisa ensinada hoje, é diferente do que aprendemos um dia. Sinto orgulho, de meu filho Klaudemir e sua mulher, Fernanda, fazerem parte desse grupo. De educadores. Grupo que se envolve e continua, mesmo com as escolas fechadas, a exercerem suas atividades. Eu dou meus parabéns e louvo esse belo e maravilhoso texto! Amo escrever e ler. Obrigada. Me chamo Kátia Mendes da Silva. Moro em Santa Luzia.Um abraço.

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