Entre perdas e perdidos

Durante o tempo em que trabalhei no Estádio Magalhães Pinto, o Mineirão, na época administrado pela ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, adorava os dias de jogos. Era como se todo o trabalho durante a semana fosse feito para aquele momento. O grito de GOL! Fazia valer toda a energia gasta com a burocracia semanal. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena, disse Pessoa. E a semana ficava curta, mas o jogo seguia grande. Ver tudo funcionando: portões abertos, cerveja gelada (naqueles tempos áureos), tropeiro servido, torcida cheia de vontade de potência – como diria Nietzsche. Isso nos enchia de alegria e, até hoje, sinto o frio na barriga, típico de quem se prepara para uma grande festa.

Só uma coisa me deixava perturbado e me tirava a graça do espetáculo: quando, por algum descuido, havia uma criança perdida. O choro, o soluço, a pequenez diante daquela imensidão toda me deixava abalado. Não tinha jeito, era uma criança que buscava apoio. Nessas horas, o que fazer? A atitude mais humana possível! Olhar nos olhos e dar a segurança que tudo ficará bem. Naquele momento era transmitir a certeza de que ali havia um adulto que tomaria as decisões certas, que daria apoio e que a conduziria de volta à sua segurança, ao mundo que, por algum instante, se perdeu no caos e na confusão. O retorno à paz se dava em forma de abraço, inundado no choro de alívio dos pais. Tarefa cumprida!

Reconduzir os perdidos, oferecer caminho diante da multiplicidade desviante do real… Desde Platão, eis o ofício da filosofia! Não é arrogância, mas uma função social que é dada a todo e qualquer filósofo. Tive um professor que dizia: o poder de conduzir os cidadãos é o único poder que o filósofo reivindica, pois é o único de que precisa.
Quando tomamos a consciência de que estamos “perdidos”, entregues à nossa errância, abertos à contingência, reféns da insustentável leveza do devir, experimentamos novamente a condição infantil. Pena que, agora, sem a beleza da criança. Nessa hora buscamos tutoriais, vídeos explicativos, motivações no zap, gurus que, no papel de adultos, nos conduzam a um lugar seguro. Quando não temos a resposta imediata, fazemos até pirraça. Brigamos com os amigos, enviamos desaforo pelas redes sociais, exigimos um posicionamento do Governo, da Igreja, da escola, enfim… Transformamos nosso grito desesperado em ódio. Nessa hora, abandonamos a sinceridade infantil e retornamos à tragicidade do mundo adulto.

É por isso que necessitamos da filosofia. Filosofamos porque desejamos nos encontrar. Filosofamos porque não queremos apequenar uma vida que já é curta. Nos momentos de incerteza, quando transitamos entre perdas e perdidos, a reflexão filosófica é GPS seguro! Tecnologia de ponta utilizada com êxito e testada há mais de dois mil anos. Ela é grátis, possui wifi e  bluetooth, podendo ser levada com você para onde for. Mas cuidado! A salvação filosófica não se assemelha ao que vemos por aí. Ela não se trata de um ser superpoderoso que nos livrará no final da história. Nem de um exército que chegará para nos libertar dos bárbaros. Muito menos daquele canal do youtube, que vai ensinar a trabalhar em casa para ficar rico em uma semana. A salvação proposta pela filosofia não vem de fora, mas do próprio sujeito. É isso que chamamos de autonomia: a possibilidade de pensar por si mesmo, de não se perder em um mundo que escraviza aqueles que não sabem onde querem chegar. Assim, a salvação filosófica se assemelha a um homem que, caindo em uma areia movediça, puxa os próprios cabelos, sendo a única esperança para salvar a si mesmo.

Difícil, não é? E quem disse que é fácil se salvar?

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