Em casa, a vitória!

Não suporto a ideia de ficar preso em casa. Explicando melhor: não consigo conceber a ideia de que ficar em casa é estar aprisionado. Por isso considero que prisão e casa são palavras antônimas. Esse é apenas um sinal de que já estamos doentes faz muito tempo. Não me leve a mal. Gosto de sair de casa pela manhã, tenho o privilégio de trabalhar com aquilo que gosto e convivo com pessoas magníficas durante o dia, mas chegar em casa é sempre retornar ao lugar natural, casa é sinal de liberdade.

No futebol, jogar em casa é ter chance clara de vitória. A não ser que o time não esteja lá grande coisa. Se o plantel não estiver à altura e o esquema tático não convencer, nem adianta encher estádio. É assim também conosco. O problema não é jogar em casa, mas sim como chegamos para esse jogo. A rotina contemporânea nos descaracteriza tanto que, na maioria das vezes, “chegar ou partir são só dois lados da mesma viagem”.Workaholics de plantão estão perdidos, galerinha que só encontra a felicidade no happy hour já não sabe o que fazer. Só tem quatro dias de isolamento social e as mensagens recebidas me parecem de náufragos pedindo socorro. De memes a vídeos, muito gente “sobrevivendo à quarentena” como se estivessem na fila para a cadeira elétrica.

Momento muito propício para a figura de Ulisses, ou Odisseu. Este heroi só queria uma coisa: voltar para a casa, para sua Ítaca, ao lado de Penélope e Telêmaco. A meu ver, uma das histórias mais marcantes da mitologia grega, imortalizada por Homero.  Para quem não se lembra da história aí vai um refresco: Ulisses era rei da pequena Ítaca, lugar adorável, onde vivia com sua amada esposa e seu filho recém-nascido. Tudo ia bem, até chegar a comitiva de reis gregos, convocando-o para a famosa Guerra de Troia. Ulisses não quer ir. Ele Não quer lutar em uma guerra que não é sua (qualquer relação com o atual sistema econômico é mera coincidência). Na história, o Rei de Ítaca chega a se passar por louco, mas acaba convencido e, com seu exército, vai à Troia. Lá,  luta durante dez anos. É dele a ideia do “Cavalo”, que termina com a guerra e dá a vitória aos gregos. Com isso, o herói pode voltar, feliz da vida,  para seu lugar natural, sua Ítaca, ao lado dos seus. Mas é aí que a Odisseia de Ulisses tem muito a nos ensinar, principalmente em  tempos de isolamento social.

A volta para a casa não é fácil. Nosso herói deve vencer vários desafios para retornar ao seu próprio lar. Já viu, né? Retornos não são fáceis. Lembrando que ele deve voltar pelo mar. Em toda narrativa mitológica o mar simboliza a horizontalidade, isto é, a imanência dos desafios terrenos. Só aí temos uma bonita metáfora da vida: voltar para a casa só é possível após vencermos os desafios que a realidade nos apresenta. Aqui destaco alguns episódios dessa narrativa, que nos colocam sérias questões existenciais.

 Na caverna dos Ciclopes, buscando suprimentos, Ulisses tem que furar o olho de um gigante para poder sobreviver. Além disso, para despistar os irmãos da fera, ele diz que seu nome é ninguém. Ferido, o Ciclope sai aos berros: – ninguém furou meu olho! – Ninguém furou meu olho! Ulisses é salvo pelo fato de ser ninguém. Essa não é uma questão importante? Quantas vezes, ao voltarmos para a casa, temos que esquecer parte de nós? Quantas vezes, voltando para nossa liberdade, temos que deixar os sobrenomes empresariais que tanto nos definem? Ser ninguém é, de certa forma, um exercício de humildade.

Na Ilha dos Lotófagos encontramos pessoas que ingeriam uma planta narcótica, uma espécie de flor de lótus, e esqueciam de todo seu passado, ficando anestesiadas e sorridentes. Alguns homens de Ulisses caem na armadilha e ficam presos a essa ilha. Não é difícil nos depararmos com gente dessa natureza, anestesiada por aí. Os lotófagos passeiam tranquilamente pelas catedrais do consumo, na certeza de que a ingestão narcótica das coisas irá fazer com que a vida seja mais leve. Não nos enganemos. É apenas uma forma de nos distanciar de nosso lugar natural.

Por fim, Ulisses chega à ilha de Calipso. Ela é uma deusa fantástica, possuidora de uma topografia corporal de dar inveja a qualquer mulher. Lá, ele é convidado a esquecer Penélope, Telêmaco e, consequentemente, seu reinado na pequena Ítaca. Nesse momento, como diriam os gregos, o bicho pega! Pois, além de poder usufruir de todos os benefícios da ilha, inclusive os favores da deusa Calipso, nosso herói ganha a oferta da imortalidade e da juventude eterna. Isso mesmo, ele não teria apenas o direito de viver para sempre, ele ganharia o direito de ser eternamente jovem, viril, motivado, praticamente um Highlander do crossfit! Mesmo com todos esses benefícios, tendo a chance de realizar o sonho de dois terços da humanidade, ele vai todas as noites para o alto da ilha de Calipso, chorar copiosamente com saudade de casa. Tudo isso porque de nada adianta a imortalidade, a juventude, se não estamos no lugar para o qual fomos destinados. De nada adiante a eternidade, se ela vem acompanhada da infelicidade eterna. Para Ulisses só uma coisa o deixava feliz: o retorno à casa! Só fazia sentido reinar em um lugar onde houvesse pessoas com quem ele tinha um vínculo profundo de amor. Retornar à casa! Esse era o grande objetivo de um dos maiores heróis gregos, o vencedor de Tróia.

Que a Odisseia de Ulisses nos inspire no retorno à casa. Que saibamos nos desfazer das amarras sociais que sempre nos fazem ser “alguém”. Que aprendamos ser “ninguém”, para assim sermos rebatizados com o nome daqueles a quem destinamos nosso amor. Que tenhamos força para vencer o poder alucinógeno das tentativas mercadológicas de nos encher de vazios… Coisas que nos fazem esquecer o caminho de casa. Mas, principalmente, que tenhamos a lucidez para perceber que nada fará sentido, nem mesmo a imortalidade, se não formos lembrados, diariamente, por aqueles e aquelas que, durante muito tempo, esperam nosso retorno.

Ulisses, bom retorno à casa!

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