Coronavírus e a ética do Fair Play

Os principais campeonatos pararam. E o futebol parando é porque a coisa é séria!

O período sabático chegou. De forma inesperada, é verdade. Mas chegou. É hora de recolher, ou melhor, de nos recolher à nossa fragilidade, muitas vezes ignorada pela vida contemporânea. Recolher o nosso medo, responsável pela manutenção da vida, mas também responsável pelas nossas neuras e paranoias. Para alguns, é apenas tempo de recolher os produtos das prateleiras dos supermercados o mais rapidamente possível, como se isso bastasse para afastar o perigo. Mais uma vez, lá vamos nós… Certos de que o consumo é uma forma de adiar a finitude. Lógico que precisamos nos precaver, mas o que assistimos foi outra coisa. A proteção é para todos, as mensagens de coragem pelo Whatzapp também, mas o álcool em gel é para poucos! Quem pode, leva mais. Essa é a lei da selva, que nestes momentos fica mais explicita. A oportunidade de nos distanciarmos da vida social nos colocará diante de nós mesmos e, para muitos, será preciso ressignificar a existência.

Penso que estes momentos denunciam a matéria frágil da qual somos feitos. Mas não nos enganemos, esses momentos são essenciais para uma tomada de consciência. Afinal, nosso pensamento funciona por contrastes. É diante da doença que pensamos na saúde, é diante da tristeza avassaladora que pensamos na felicidade, é diante do caos que desejamos o cosmos e, em ultima instância, é diante da nossa mortalidade que somos capazes de pensar a respeito do significado da vida.

Viveremos em uma sociedade sem trabalho? Como anda a seguridade social? Pensamos no bem comum? É possível nos organizarmos para que, neste tempo de incerteza, consigamos pensar no outro? Não apenas em relação à transmissão do temido vírus, mas também em relação ao que vamos estocar sem nem mesmo precisar? Não tenho dúvidas de que a saída para grande parte dessas questões passa pela ação ética. A desigualdade existe porque não acreditamos no valor ético da solidariedade, a violência cresce porque não acreditamos no valor ético da vida, a paz não é frutífera pois não acreditamos no valor ético da justiça.

Por isso que estes momentos nos fazem pensar a respeito de nossos valores. E talvez essa seja uma parte de nosso “estoque” que não está disponível nas prateleiras. Os momentos de incerteza nos fazem lembrar dessas questões. Agora é hora de pensar naquilo que nos une e não naquilo que nos separa. Isto é, pensemos nos valores construídos socialmente, no pacto civilizatório que firmamos uns com os outros e que garante nossa humanidade. NO futebol chamamos isso de fair play. É hora de parar o jogo para que os mais vulneráveis sejam atendidos. É hora de pensar naqueles que se encontram em maior fragilidade.

O gesto de cada um faz muita diferença na construção do bem comum. Agora é a hora! O jogo está pausado, mas a vida não. Vamos exercitar nossa virtude, que, segundo o Filósofo Michel de Montaigne, se fortalece na adversidade, supõe dificuldade e não pode existir sem luta. Isso é, a virtude recusa a companhia da facilidade. Afinal de contas, é muito fácil ser ético quando tudo vai bem, o difícil mesmo é sê-lo como escolha diária, principalmente nos momentos mais difíceis. Ética pressupõe risco, mobilização diante da incerteza de nossa condição. Isso é priorizar o atendimento ao jogador que cai desfalecido no chão, jogando a bola pra fora diante do gol sem goleiro, mesmo perdendo por um a zero na final. Isso é fair play, essa é a virtude que nos faz humanos.

4 thoughts to “Coronavírus e a ética do Fair Play”

  1. Belo texto para profunda reflexão, afinal em tempos como os atuais devemos deixar de pensar em nós apenas e nos preocupar em sermos melhores para o outro como se fosse para nós mesmo, repensando nossos atos e atitudes ainda podemos mudar muita coisa. Abraço

  2. “Afinal de contas, é muito fácil ser ético quando tudo vai bem, o difícil mesmo é sê-lo como escolha diária, principalmente nos momentos mais difíceis”. O texto é muito bom mas essa parte, na minha opinião, pode ser o grande aprendizado para todos nós nesse momento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *