Viagens que não voltam mais: acervo retrata transporte de BH

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Reportagem originalmente publicada no caderno Vrum do Estado de Minas de 21 de fevereiro, acrescida, para o blog, de cinco modelos de miniaturas – totalizando 13.

Fotos: Euller Júnior/EM/D.A Press

A história do engenheiro eletricista aposentado Carlos Humberto Antunes de Siqueira, de 72 anos, se confunde com as dos bondes, trólebus, jardineiras (ou lotações) e ônibus que aos poucos tomaram as ruas e carregaram o desenvolvimento dos bairros de Belo Horizonte. Em 1950, a chegada de um ônibus novo pintado de vermelho e verde, de frente chata – bem mais moderno que as jardineiras já desgastadas que atendiam Santa Tereza – despertou a atenção dos moradores do bairro. A população logo tratou de apelidar o veículo de Gostosão. O fascínio do imaginário popular levou Carlos, que morava na Rua Salinas e tinha apenas sete anos de idade, a começar a desenhar os coletivos. “Naquela época os pais eram bravos, muito diferente de hoje, e meu pai começou a implicar. Falava que eu só desenhava ônibus. Aí comecei a desenhar escondido”, conta o aficionado, que logo ganhou a companhia nos rabiscos do irmão três anos mais novo. A técnica evoluiu e ambos passaram a desenhar os ônibus em perspectiva, baseados em fotografias.

Foram os desenhos guardados pelo irmão e a paixão pelo veículo que levaram Carlos, anos mais tarde, a criar um acervo que hoje retrata de forma fiel e evolução do transporte coletivo da capital nas últimas seis décadas. Feitas de madeira e resina com desenhos computadorizados recortados, as miniaturas produzidas pelo aposentado mostram uma época em que o transporte (e BH) eram bem diferentes de hoje: os motoristas dirigiam seus próprios ônibus, o destino final das linhas era o Centro, todos se conheciam e se cumprimentavam e ainda havia o trólebus (movido a eletricidade, sem qualquer poluição).

A produção em escala teve início em 1998, quando Carlos se aposentou na Cemig e a começou por hobbie. No início, o engenheiro eletricista ficava encarregado de todo o processo. Até que chegou a conclusão que não dava conta de tudo. “Arranjei um marceneiro e uma pessoa que passasse os desenho em lápis para o computador para ajudar”. Para retratar os veículos de forma fiel, Carlos recorreu à fotos dos ônibus do acervo da Gerência de Documentação (Gedoc) do Estado de Minas. Um belo dia o cunhado, que é professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), sugeriu expôr as miniaturas. A repercussão foi imediada. 100 unidades foram encomendadas pelo presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (Setra-BH), onde se encontram expostas até hoje. Outras tantas foram requeridas por empresas de ônibus. Desde então Carlos produziu 1.237 unidades (todas as maquetes são numeradas). A fabriqueta, chamada de Ônibus de Brinquedo Artesanal (OBA), só foi interrompida por falta de tempo e dedicação. Dentre tantos veículos, o aposentado selecionou alguns que fizeram história. Confira.

TREZE ÔNIBUS QUE FIZERAM HISTÓRIA

Grassi Volvo da linha Santa Tereza

Apelidado de Gostosão, em foto do Diário da Tarde datada de 26/06/1950, despertou o interesse de Carlos nos desenhos e maquetes. Duas unidades do modelo 1949 compunham a frota da Viação Santa Tereza na linha, em tons de verde distintos. A parte superior das janelas era pintada em azul transparente. Não possuía porta de emergência, recurso comum (e exigido) na época.

Grassi Morris micro-ônibus da linha Santa Efigênia

Outro modelo da encarroçadora paulistana, a quem é atribuída a produção do primeiro ônibus brasileiro, se destacava pelo tamanho: o menor entre os ônibus de frente chata (com carroceria integral) de BH na década de 1950. Pertencia a um dos vários permissionários da linha.

Ford da linha Santa Tereza

A Viação Minas Gerais antecedeu a Viação Santa Tereza na linha do bairro. O modelo Ford do início da década de 1950 se diferenciava por ter porta de emergência traseira.

Bonde da linha Hospital Militar

Numa reforma feita pelo Departamento de Bondes e Ônibus (DBO) em 1951, os bondes abertos foram transformados em bondes fechados para proporcionar mais segurança. Poucos foram reformados: logo na sequencia vieram os primeiros trólebus importados dos EUA.

Trólebus Twin-Coach 1954

O trólebus de número 503 compôs a frota dos quatro primeiros ônibus elétricos da capital, importados dos EUA. Quando uma nova remessa de 50 modelos Marmonn Herrington foi adquirida pelo extinto Departamento Municipal de Transporte Coletivo (DMTC), em 1961, permaneceu como único remanescente inicial, ganhando pintura atualizada nas cores amarelo e laranja.

Grassi Aclo da linha 27 (Bairro São Paulo)

Cerca de 15 a 20 unidades do modelo inglês, uma versão baixa dos tradicionais ônibus londrinos, foram adquiridas por empresas da capital no Rio de Janeiro (de onde já vieram um tanto surrados e em um mesmo padrão de pintura), por volta de 1953. Para dar sobrevida, ganharam novas janelas e frisos de alumínio nas laterais. Acabaram tendo vida curta em BH: cerca de cinco anos. O apelido Camões, nome dado pela cabine avançada do motorista e característica da frota inglesa, ficou marcado.

Carbrasa Volvo da linha Avenida

O exemplar da fábrica carioca, igualmente popular em BH, foi comprado pela Viação Vitória S/A – uma das maiores operadoras da época. Após intervenções do DMTC na linha que começou a circular na Avenida Afonso Pena em 1950, foi parar na Viação Real, ganhando roupagem prata e vermelha.

Maril Mercedes-Benz da linha Santa Tereza

Maril – a exemplo da Gevasco e da Azirma –, era uma pequena fábrica de carrocerias para ônibus sediada em BH. Este exemplar (de número 5) construído a partir do chassi do caminhão Mercedes-Benz L-312 “Torpedo”, veio logo na sequencia de outro idêntico (de número 7) com a renovação da frota do bairro.

Metropolitana Steyr 1953 da linha Santa Efigênia Final Euclásio

A lotação foi um dos primeiros ônibus da Viação Euclásio, existente até os dias atuais – com garagem no Anel Rodoviário, no bairro Padre Eustáquio.

Chevrolet 1954 da linha Santo Antônio

Diferentemente dos outros ônibus da época, tinha carroceria e chassi de uma mesma marca: a General Motors do Brasil (GMB), que os montava em São Paulo. A Viação Alterosa, proprietária do modelo, existiu até o fim da década de 1980.

Grassi Internacional da linha 47 (Gameleira Vila Oeste)

Também retratado nas páginas do Estado de Minas da época, o ônibus da Viação Vitória S/A foi um dos últimos a circular ainda com a frente “charutinho”, com o motor separado da carroceria (as jardineiras eram chamadas de lotações).

Ciferal 1965 Chicotur

O ônibus rodoviário Mercedes-Benz LP-321 operou até o fim da década passada na linha distrital Esmeraldas x Urucuia, retratada pelo Estado de Minas em 2006. Hoje pertence à um colecionador, que o guarda num galpão às margens da BR-040 em Nova Lima.

Marcopolo Veneza Expresso da Viação Real

Tataravô dos ônibus do BRT/Move, se destacava pelo porte maior no fim da década de 1970. Apesar da imponência, as poltronas eram de plástico duro. As oito unidades foram as primeiras a contar com três portas na frota de BH. Inicialmente circularam nas cores da empresa. Depois, com a implantação do sistema de cores Probus, em 1982, receberam a cor azul diametral na linha 3002 (Pedro II/Mangabeiras).

SERVIÇO

Ônibus de Brinquedo Artesanal (OBA)

Tel.: (31) 3344-5014

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