Transporte suplementar “estaciona” sem integração tarifária

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Fotos: Marcos Vieira/EM/D.A Press

Criado em 2001 como forma de regularizar os perueiros, o transporte suplementar – 282 micro-ônibus pertencentes à proprietários particulares, interligando bairros de BH sem passar pelo Centro – segue sem previsão de integração tarifária com o metrô e  demais linhas de ônibus, incluindo o Move. Apesar de a BHTrans planejar a expansão do transporte rápido por ônibus para outras regiões da capital até 2020, otimizando e substituindo a atual frota de ônibus convencionais, as 24 linhas suplementares identificadas pela cor amarela não tem previsão de evolução em agilidade, conforto, pontualidade, integração e segurança (cinco dos preceitos básicos do BRT) após a primeira licitação do serviço, prevista para o ano que vem.

A única possibilidade de mudança, acena a BHTrans, está na integração entre as linhas do próprio sistema suplementar, avaliada pelo órgão. Com a justificativa de que o ônibus suplementar possui características operacionais distintas com o Move e no caso do metrô, a integração envolve uma negociação com o governo federal – embora várias linhas do transporte convencional sejam alimentadas pelo trem de superfície –, a empresa que gerencia o transporte e o trânsito de Belo Horizonte afirma que o serviço “continuará sendo ofertado aos usuários nos moldes hoje existentes”, estando sujeito à eventuais ajustes para readequação de horários e itinerários.

A última grande mudança nos micro-ônibus desde a implantação da bilhetagem eletrônica em 2005, ocorreu na própria frota: foram adquiridos veículos maiores, equipados com elevadores e ar-condicionado (cujo uso é opcional e fica a critério do dono de cada ônibus).

Para os motoristas que vivem do suplementar, a impossibilidade de aperfeiçoamentos significa perda de passageiros e consequente sobrevivência a longo prazo. A maioria, alega o Sindicato dos Permissionários Autônomos do Transporte Suplementar e Alternativo de Passageiros dos municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte (Sindpautras), sindicato do setor, reclama do impacto financeiro gerado pela redução temporária da tarifa. Entre julho de 2013 e maio de 2014, a maioria das linhas da capital teve o valor reduzido de R$ 2,85 para R$ 2,65 – diferença de R$ 0,20.

“A redução dos R$ 0,20 na tarifa impactou no setor. Muitos permissionários não estão conseguindo pagar os ônibus”, sustenta o diretor-presidente do Sindpautras, Maurício dos Reis.

Setor é a favor de ônibus maiores (tipo micrão), para atender demanda

Ex-funcionário da Petrobrás que vivia da compra e venda de veículos como meio de renda adicional e decidiu colocar duas Kombi para rodar no Anel Rodoviário – em meio à febre dos perueiros que tomou conta das ruas do Brasil no fim dos anos 1990 –, Reis diz que os permissionários do suplementar adquirirem os micro-ônibus financiados. A queda de demanda, agravada pela ausência de integração e o congelamento da tarifa, aponta, tem dificultado a operação.

“A maioria adquire os micro-ônibus financiados em 48 vezes, com parcelas mensais de R$ 6 mil. Há gente trabalhando das 5h às 23h para arcar com o financiamento. Algo desumano”, alerta o diretor social do sindicato, Roberto Guerra.

Para ambos, o avanço do suplementar depende, antes de mais nada, com a integração ao Move. Adiado em 2011, conforme Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado entre a BHTrans e o Ministério Público (MP), o projeto de licitação do sistema suplementar vem sendo trabalhado pelo órgão para o segundo semestre de 2015.

Raio-x do suplementar

282

micro-ônibus (170 em Betim)

24

linhas

2

a 3 anos é a média de uso dos micro-ônibus (sujeitos a maiores falhas mecânicas depois do período)

R$

180 é a média diária de custo de combustível para cada permissionário, segundo o sindicato

Cronologia

O transporte suplementar de BH começou a operar em 15 de setembro de 2001, com a linha S60 (Circular Venda Nova). No processo licitatório foram classificados 300 concorrentes, de um total de 1.264 inscritos.

2001 – Apresentação dos primeiros ônibus, do tipo mini-ônibus

Cristina Horta/EM/D.A Press

2002 – 12 motoristas acampam na BHTrans reinvidicando melhorias

Renato Weil/EM/D.A Press

2005 – Implantação da bilhetagem eletrônica

Marcos Michelin/EM/D.A Press

Personagem da notícia

Roberto Guerra, diretor social do Sindpautras

Suplementar ontem e hoje

“Fui um dos seis motoristas a iniciar o transporte suplementar na linha S60, atendendo o itinerário da antiga linha convencional 610 (Circular Venda Nova). A linha foi inaugurada com uma frota inicial de seis micro-ônibus, com viagens de 15 em 15 minutos em substituição aos dois ônibus convencionais que a atendiam, de 40 em 40 minutos. A linha 610 era tida como inviável pelo transporte convencional e os resultados não poderiam ser diferentes para o suplementar, uma vez que o custo operacional da linha era maior que sua receita, inviabilizando a sobrevivência. Porém, esta linha sobreviveu após alterações implantadas de itinerário. Como aconteceu naquela ocasião, até hoje existem linhas suplementares que necessitam ser restruturadas a fim de corrigir desajustes e desequilíbrios do sistema que prejudicam a operação e o atendimento aos usuários. No primeiro dia de operação era tudo novidade. Tratei e fui tratado com muito respeito e cordialidade pelos passageiros. Quando cheguei ao ponto final, não havia nenhum passageiro. O primeiro passageiro foi o sr. Pedro, um pedreiro, que entrou surpreso no ônibus após uns seis quilômetros do ponto final”.

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