Aventura desumana: desabafo de uma usuária do transporte de BH

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press

Segunda-feira, 13h30, dez minutos depois de um temporal. Pego o SC01 B (Contorno B), para ir do Bairro Floresta, na região Leste, ao Funcionários, Centro-Sul. E não é que hoje ele veio amarelo… O percurso normalmente dura entre 10 minutos e 15 minutos. A chuva já parou. O ônibus está absolutamente lotado e com quase todas as janelas ainda fechadas. Subo as escadas e me equilibro num estreito pedaço de degrau próximo ao vão do motor, bem em frente ao motorista. O ônibus arranca e chega no próximo ponto, sem chances de passar a roleta. Mais passageiros. Alguns, revoltados, reclamam de estar esperando o coletivo há cerca de uma hora. A maioria quer subir, mas os que já estão dentro – inclusive uma idosa que, de pé e espremida, tenta se segurar bem atrás do motorista – dizem que não cabe mais. Calmamente o motorista afirma: “Todos têm que entrar”. E os passageiros ajudam: “Vamos lá, pessoal, um passo à frente”.

Mais dois pontos e a história se repete. Uma grávida entra e se posiciona no degrau abaixo do que estou. No ponto seguinte, resolve descer. O risco não compensa o esforço para quem leva uma vida dentro de si. Pergunto ao motorista o que aconteceu: “Caiu uma árvore na Contorno mais cedo”. O trânsito está bom, mas as paradas nos pontos já acrescem o tempo de percurso. Mais de 20 minutos e ainda não tive coragem de tentar passar a roleta. O ponto está chegando e é hora de criar coragem. Resolvo me aventurar.

Quando sou a segunda a quase atravessar, mais um ponto e aperto. As portas se abrem e um jovem entra pelo meio. O trocador reclama. Manda que ele siga a fila como todos e entre pela frente. Ele se nega veementemente. O trocador tenta chamar o motorista. Em vão. O ônibus está cheio demais para ele ouvir alguma coisa. Então arranca e o moço fica. O trocador fica preocupado. Um passageiro o acalma: “Deixa. Não crie confusão. Estamos todos atrasados e uma briga só vai piorar as coisas”. Ele pensa e releva. O rapaz, ainda no último degrau da porta do meio, dá o cartão para o pagamento de duas passagens. O trocador pede espaço. É preciso rodar a roleta duas vezes.

A um passo da catraca, fico ainda mais apertada, já meio sem ar. Penso que se passar mal vou atrasar mais a vida de todas as pessoas. Respiro fundo. Ele roda duas vezes a roleta, depois uma moça passa e finalmente é minha vez. Nem consigo ver se meu ponto está próximo. Mal sei onde o ônibus está. Ver o lado de fora é um exercício. Então consigo chegar ao meio do ônibus. Tarefa difícil para quem não alcança a barra do teto e tem que segurar nas laterais. Mais um ponto e os passageiros avisam: “Calma, mais espaço, um cadeirante vai descer”. A operação é feita tranquilamente, apesar do espreme-espreme. Faltam dois pontos para mim. Duas pessoas bem atrás precisam descer e tenho que dar um jeito de deixá-las passar. Sucumbo.

Melhor descer também e seguir a pé. Os 15 minutos habituais viraram 30. Tudo bem porque o trajeto é curto. Mas penso nos companheiros que ali (e em muitos outros coletivos diariamente) continuam. Penso no cidadão que a duras penas compra um carro e ainda tem que ouvir das autoridades (que deveriam viver uma experiência assim) que é preciso deixar o automóvel em casa e usar o transporte coletivo. Francamente, em que país vivemos?

Paula Carolina, repórter do caderno Vrum do Estado de Minas

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