{"id":143,"date":"2026-01-26T22:20:45","date_gmt":"2026-01-27T01:20:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/?p=143"},"modified":"2026-01-26T22:29:36","modified_gmt":"2026-01-27T01:29:36","slug":"o-espelho-estranho-quando-o-comportamento-vira-sintoma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/2026\/01\/26\/o-espelho-estranho-quando-o-comportamento-vira-sintoma\/","title":{"rendered":"O Espelho Estranho: Quando o Comportamento vira Sintoma"},"content":{"rendered":"\n<p>Se voc\u00ea acompanha esta coluna, j\u00e1 percorremos o labirinto do diagn\u00f3stico, o impacto financeiro e o peso invis\u00edvel de quem cuida. Mas hoje, precisamos entrar na sala de casa. Precisamos falar sobre o que acontece quando as portas se fecham e a DFT (Dem\u00eancia Frontotemporal) se manifesta n\u00e3o no sil\u00eancio, mas na a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entramos agora na fase mais &#8220;vis\u00edvel&#8221; e, muitas vezes, mais constrangedora ou dif\u00edcil de explicar para quem est\u00e1 de fora. Existe um senso comum de que toda dem\u00eancia se resume ao esquecimento. \u00c9 quase autom\u00e1tico: quando as pessoas sabem do diagn\u00f3stico, a primeira pergunta que me fazem \u00e9: <strong>\u201cEle ainda te reconhece?\u201d<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se o reconhecimento fosse a \u00fanica r\u00e9gua da sanidade.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Al\u00e9m do &#8220;Esquecer&#8221;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Na DFT, o desafio \u00e9 mais profundo: o comportamento n\u00e3o \u00e9 apenas uma falha de mem\u00f3ria; \u00e9 uma mudan\u00e7a na pr\u00f3pria personalidade. O filtro social se rompe. Mas isso n\u00e3o significa que o esquecimento n\u00e3o esteja l\u00e1, espreitando a rotina.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu caso, ao longo desses 11 anos, precisei aprender a lidar com o apagamento da mem\u00f3ria recente. \u00c9 um exerc\u00edcio di\u00e1rio de paci\u00eancia e adapta\u00e7\u00e3o. Se no jantar pergunto o que ele comeu no almo\u00e7o, invariavelmente, ele desconversa e o vazio na resposta me mostra que aquela informa\u00e7\u00e3o j\u00e1 se foi.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio \u00e9 pr\u00e1tico e, por vezes, arriscado. Se aviso antes de dormir: <em>&#8220;Amanh\u00e3 n\u00e3o pode tomar caf\u00e9, voc\u00ea precisa estar em jejum para realizar os exames&#8221;<\/em>, a orienta\u00e7\u00e3o se perde no caminho entre o travesseiro e o despertar. Ele acorda cedo, vai \u00e0 cafeteira e toma o caf\u00e9. Ele n\u00e3o faz por teimosia ou desobedi\u00eancia; ele simplesmente esqueceu o combinado. O c\u00e9rebro n\u00e3o ret\u00e9m o &#8220;aviso pr\u00e9vio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O C\u00e9rebro sem Filtros<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Aliado a esse esquecimento da rotina, enfrentamos as mudan\u00e7as comportamentais que desafiam nossa resili\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. A Perda do Filtro Social (Desinibi\u00e7\u00e3o)<\/strong> Uma ida a padaria ou um almo\u00e7o em fam\u00edlia, tornam-se situa\u00e7\u00f5es tensas. Coment\u00e1rios inadequados ou a falta de empatia aparente ou a quebra de regras sociais b\u00e1sicas. N\u00e3o \u00e9 falta de educa\u00e7\u00e3o; \u00e9 a biologia falhando. Na DFT, o &#8216;n\u00e3o se deve fazer isso&#8217; deixa de existir no manual do c\u00e9rebro.<br><br><strong>2. A Rigidez e a Repeti\u00e7\u00e3o (Estereotipias)<\/strong> A rotina que vira uma pris\u00e3o: querer comer a mesma coisa sempre, na mesma hora, repetir a mesma frase ou o mesmo trajeto. O doente enrijece o h\u00e1bito, e qualquer mudan\u00e7a gera uma crise. Se o trajeto muda, o mundo desaba.<br><br><strong>3. As Altera\u00e7\u00f5es Alimentares e Compuls\u00f5es<\/strong> Um ponto muito comum na DFT \u00e9 a mudan\u00e7a no paladar (geralmente uma busca desenfreada por doces ou carboidratos) e a perda do sinal de saciedade. A hiperoralidade tem rela\u00e7\u00e3o direta com comportamentos de compuls\u00e3o alimentar em determinados contextos neuropsiqui\u00e1tricos, agindo muitas vezes como um sintoma de descontrole de impulsos. A hiperoralidade \u00e9 um sintoma comum na variante comportamental da dem\u00eancia frontotemporal, levando a mudan\u00e7as de h\u00e1bitos alimentares e compuls\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>4. A Apatia vs. Euforia<\/strong> O comportamento flutua. Horas de um sil\u00eancio profundo, onde parece n\u00e3o haver ningu\u00e9m ali (apatia), intercaladas com momentos de uma energia ou euforia sem motivo aparente. O motivo que ele criou em sua mente que n\u00e3o passa de uma confabula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Olhar de quem fica<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Compreender que esses comportamentos s\u00e3o <strong>sintomas qu\u00edmicos<\/strong> \u2014 e n\u00e3o falhas de car\u00e1ter \u2014 foi a chave que precisei girar depois de muitos anos &nbsp;para sobreviver emocionalmente. Quando ele esquece o exame ou age de forma inusitada, n\u00e3o \u00e9 o meu marido me desafiando; \u00e9 a doen\u00e7a se manifestando atrav\u00e9s dele.<\/p>\n\n\n\n<p>A DFT nos exige um luto em vida: o de ver a personalidade de quem amamos ser reescrita diante dos nossos olhos, enquanto tentamos, a todo custo, preservar a dignidade de quem ele sempre foi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na DFT, a dem\u00eancia vai al\u00e9m do esquecer: \u00e9 a mudan\u00e7a da personalidade. Entenda como lidar com as altera\u00e7\u00f5es de comportamento e a perda de filtros no dia a dia.<\/p>\n","protected":false},"author":359,"featured_media":146,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-content\/uploads\/sites\/152\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-26-at-10.28.45-PM.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/359"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=143"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":144,"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/143\/revisions\/144"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/146"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.uai.com.br\/dft-demencia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}