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O Ciúme na Demência não é Mera Desconfiança, é Sintoma

Na semana passada, vivi uma daquelas situações que se instalam no pensamento e se recusam a ir embora. Uma grande amiga de infância me enviou uma mensagem: a mãe estava internada em um hospital próximo à minha casa. Ela passaria a tarde lá e, se eu estivesse à toa, poderíamos tomar um café. “À toa” eu nunca estou, mas jamais deixaria de estar pertinho delas numa ocasião como essa. Até porque situações relacionadas à saúde, seja de qualquer ordem, mexem profundamente comigo desde que convivo com a DFT.

Quando voltei a morar em São Paulo, após quatro anos e meio em Curitiba, um dos meus desejos mais intensos era resgatar os laços que ficaram pelo caminho. Viver longe da família e de pessoas com quem construí histórias me ensinou a valorizá-las enquanto estão aqui. A visão sobre a vida também se lapidou — e se elevou a um novo patamar — após a doença do meu marido. O olhar sobre o que é importante definitivamente mudou.

Infelizmente, os planos de resgatar esses relacionamentos pessoais não foram como imaginei. O desenrolar da doença dele avançou e acabou me isolando de tudo e de todos. Essa é uma das características sombrias da demência frontotemporal. Mas, com essa amiga, o reencontro aconteceu ainda em 2017, um dos poucos que consegui realizar sob o teto da DFT. E, sentadas ali, no hospital, na semana passada, veio a revelação que mudou o tom da nossa conversa e que permeou meus dias seguintes.

Quando o ciúme não é apenas ciúme

Perguntei pelo pai dela, hoje com 79 anos: “Ele está com demência”. Fiquei desolada. Conheço a jornada profundamente e lido com os desafios. Mas, para me tranquilizar, ela logo contextualizou: está no início, leve. Algumas situações apenas.

Mas, ao falarmos sobre o dia a dia, a realidade se impôs. A mãe dela, aos 81 anos, começou a detalhar o que a entristecia profundamente: o ciúme doentio que o marido desenvolveu nos últimos anos. O relato dela foi como um espelho refletindo o meu passado.

Dois anos antes do meu marido adoecer, quando eu tinha 37 anos, vivi exatamente isso. Um ciúme desproporcional, descabido, sem sentido. Situações que eu jamais imaginei viver: o marido que manda seguir o carro, que sente ciúme da própria família, que controla cada passo. A mudança para Curitiba, para onde fomos após um assalto traumático em São Paulo, inicialmente se tornou uma forma de controle, que escalou numa trajetória que beirava a loucura.

O que a ciência explica: Por que isso acontece?

Muitas vezes, recebemos o diagnóstico de demência e pensamos apenas na perda de memória. Mas a demência, especialmente a frontotemporal ou o Alzheimer em estágios específicos, atinge áreas do cérebro responsáveis pelo filtro social, pelo julgamento lógico e pelo controle de impulsos.

O ciúme patológico é um comportamento frequente em quadros demenciais. Quando o cérebro perde a capacidade de processar a realidade, ele passa a imaginar construções mentais delirantes; a lógica se dissolve e a desconfiança passa a reger tudo. Era exaustivo. Se eu fosse ao cabeleireiro ou tomasse um café com minha irmã — mesmo que eu enviasse uma foto nossa para tranquilizá-lo —, a pergunta que vinha em seguida era sempre de desconfiança: “Quem tirou essa foto?”. Até uma mudança simples, como atualizar meu perfil no Facebook com uma foto minha e do nosso filho, após anos sem imagem alguma, fazia o mundo vir abaixo. Qualquer passo que eu dava, qualquer movimento cotidiano, tornava-se combustível para suspeitas sem lógica alguma e discussões desgastantes. Aquele comportamento era sufocante e, pouco a pouco, eu ia perdendo a alegria de viver. Como já compartilhei aqui em outros textos, comecei a colocar em dúvida nosso casamento. Na verdade, era a doença dando seus primeiros sinais.

A mãe da minha amiga chegou a relatar que, quando ela vai visitar a família no interior, o pai passou a implicar. Ele a acusa de estar indo rever os antigos namorados. Minha amiga, que sempre foi debochada e tem o humor e a leveza necessários para lidar com o absurdo da situação, emendou: “Metade dos ex-namorados já morreram e a outra metade tem mais de 80 anos!”. Rimos juntas, mas o riso é apenas um refúgio. Por trás da cena tragicômica, há uma realidade cruel: na demência, a insegurança se cristaliza como uma verdade absoluta, transformando a convivência em um ciclo de comportamento persecutório e sufocante.

Além do ciúme, é comum observarmos:

  • Desinibição sexual: A pessoa perde os filtros sociais e pode agir de forma sexualmente inapropriada, sem a intenção de ofender, mas por falha na regulação cerebral.
  • Agressividade e irritabilidade: Mudanças bruscas de humor por frustração ou desorientação.
  • Repetição de comportamentos: O ato de “vigiar” torna-se um ciclo vicioso que traz uma falsa sensação de segurança ao paciente.
  • Confabulação (Memórias fabricadas): Diferente da mentira, a confabulação ocorre quando o cérebro, para preencher as lacunas de memória, “inventa” fatos. A pessoa pode descrever com detalhes minuciosos algo que nunca aconteceu. Ela acredita piamente naquilo.

A dor que não tem idade

O que mais me tocou nessa conversa no hospital não foi o diagnóstico médico de que temos entes queridos com demência em diferentes graus, mas o sentimento compartilhado: o sufocamento.

Eu tinha 37, 38 anos na época em que passei por esse estágio. Ela tem 81. É lúcida e ativa. A idade não diminui a dor. O brilho no olho desaparece, a vontade de viver se esvai. A vida perde o sentido não porque desejamos grandes feitos, mas porque perdemos o direito básico ao nosso próprio espaço.

Uma das frases que mais repeti nos últimos anos foi: “Eu só queria minha vida de volta”.

E “vida de volta” não é dinheiro ou a vida confortável que vivi no nosso passado próspero e abundante. É poder dormir sem ter hora para acordar depois de uma semana exaustiva de trabalho, acumulando responsabilidades porque alguém depende de você para o café da manhã. É não precisar cozinhar quando não se tem fome. É ser dona do seu próprio tempo.

Olhando para a minha amiga — que, apesar da dor, mantém o bom humor — e para a mãe dela, percebi que, embora as histórias mudem, a essência do desafio do cuidador é a mesma. Estamos todas tentando resgatar nossa própria identidade enquanto cuidamos de alguém que, por causa da doença, não é mais quem costumava ser.

Se você também se sente sufocada, saiba que essa dor é real e que o seu desejo de recuperar a sua autonomia não faz de você menos amorosa ou menos dedicada. É apenas o grito de alguém que precisa, acima de tudo, continuar existindo.

3 thoughts to “O Ciúme na Demência não é Mera Desconfiança, é Sintoma”

  1. Toda patologia traz transtornos, ao enfermo e a família, mas as de origem neurológica acredito que sejam as mais sofridas, e não por dor, mas pela desconsertante falta da razão, da lucidez de outrora. Atualmente alguns sinais de problemas neurológicos são antecipados pelo nosso sono. Convém ficarmos atentos.
    Agradeço por compartilhar sua experiência e espero que se mantenha firme nesta missão.

    1. Muito bem pontuado, Mário. Hoje, estudos já apontam que o sono e sua qualidade podem ter relação com as demências. Assunto que pretendo tratar por aqui muito em breve. Agradeço sua contribuição e seu comentário.

  2. Minha amiga querida, divido com você apenas alguns milésimos dessa situação nos nossos poucos encontros após a descoberta da doença do Alvaro, mas o que mais pesa, sinto que é a frustração e cuidar sem ser cuidada. Sinta-se abraçada e amada. A distância nunca vai apagar a nossa adolescência feliz e carinhosa. Sempre estaremos juntas em orações e pensamentos positivos. Fique firme, amiga guerreira.

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