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Por que “Saber Escrever” não é o mesmo que “Poder Trabalhar”

Por muito tempo, vivi o dilema de explicar o invisível. Como convencer o mundo de que um homem que ainda conversa, mantém o raciocínio verbal, e escreve textos, de certa forma, coerentes, não possui mais as condições básicas para a vida laboral (ou vida profissional)? A resposta não está na aparência, mas no metabolismo cerebral.

Nesta semana, compartilho com vocês os detalhes técnicos que deram um novo rumo à estrada onde nossa vida parou: o laudo do PET-CT Cerebral que finalmente confirmou a sequelas causadas por encefalite autoimune com rápido declínio cognitivo em idade precoce e deram um caminho para as perguntas que não tinha resposta.

O PET-CT Cerebral: Enxergando o Funcionamento, não a Forma

Diferente de uma ressonância magnética comum, que mostra a estrutura física do cérebro ou o PET-CT metabólico, que rastreia tumores por todo o corpo, o PET-CT cerebral mede onde as células estão consumindo energia. No exame do meu marido, realizado em 2021, exatos sete anos após a doença se instalar, o laudo apontou uma redução do metabolismo glicolítico nas regiões frontal mesial e frontobasal bilateral.

E o que isso quer dizer em termos leigos? Que o “hardware” está lá, mas a energia não chega às áreas nobres do cérebro. Onde deveria haver brilho e atividade, há um silêncio metabólico.

A glicose é o principal combustível energético do cérebro, responsável por cerca de 20 a 25% do consumo total de glicose do corpo em repouso. Ela é vital para manter a função cognitiva, memória e aprendizado, sustentando a atividade neuronal e a produção de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina

Na prática, esse diagnóstico indica que o “centro de comando” do cérebro não está recebendo ou processando energia (glicose) de forma adequada. Como as regiões afetadas são responsáveis pelas funções mais sofisticadas do ser humano, o resultado é um colapso na gestão da própria vida e do comportamento.

Aqui estão as consequências práticas divididas por área afetada:

1. Colapso das Funções Executivas (Região Frontal)

O lobo frontal atua como o CEO do cérebro. Quando o seu metabolismo reduz, a pessoa perde a capacidade de:

·       Planejamento e Organização: Dificuldade em estruturar tarefas com início, meio e fim (como organizar uma agenda ou seguir um fluxo de trabalho).

·       Tomada de Decisão: Incapacidade de avaliar prós e contras, tornando a pessoa inapta para decisões financeiras, de negócios ou laborais.

·       Priorização: Perda da noção do que é urgente ou importante.

2. Perda do Filtro Social e Inibição (Região Frontobasal)

Esta área funciona como o “freio” do comportamento. A redução metabólica aqui resulta em:

·       Desinibição: A pessoa pode dizer coisas inadequadas, agir de forma impulsiva ou perder a etiqueta social.

·       Falha no Julgamento Crítico: Dificuldade em perceber riscos ou as consequências de suas ações para si e para os outros.

3. Apatia e Perda de Iniciativa (Região Frontal Mesial)

Esta região é o motor da motivação. Na prática, isso gera:

·       Indiferença Afetiva: O que parece ser falta de amor, descaso ou indiferença é, muitas vezes, a incapacidade biológica de processar e demonstrar empatia.

·       Falta de Iniciativa: A pessoa pode passar horas sem fazer nada, não por preguiça, mas porque o cérebro não envia o comando para “começar” uma ação.

A Armadilha do “Ponto Vigil”

O ponto mais cruel dessa condição é que o paciente mantém a fala e a escrita (habilidades residuais). Na prática:

·       Falsa Funcionalidade: Ele pode escrever um e-mail ou manter uma conversa básica, o que engana quem está de fora (inclusive perícias), mas ele não consegue mais sustentar a constância e a responsabilidade exigidas por uma atividade profissional.

·       Inaptidão Civil: Devido a essas falhas, o paciente é considerado inapto para atos da vida civil, como assinar contratos ou gerir o próprio patrimônio.

E é exatamente neste ponto, na armadilha da funcionalidade residual que reside a maior dor das famílias que enfrentam a demência frontotemporal (DFT). O paciente mantém o que chamamos de “ponto vigil” de comunicação. Ele pode escrever e falar, mas não consegue mais desenvolver e processar o cognitivo, avaliar riscos.

Trabalhar exige mais do que gramática; exige discernimento, tomada de decisão e cognição social. O laudo confirma o que quatro avaliações neuropsicológicas ao longo de 11 anos apontavam e torna a situação taxativa: ele é considerado inapto para decisões de vida laboral, financeira e de negócios. As sequelas neurológicas graves afetam sua capacidade de discernimento para atos da vida civil.

O Diagnóstico como Alento


Entender tantos termos como “síndrome disexecutiva”, função executiva, prejuízos funcionais, ponto vigil, córtex pré-frontal ou lobo frontotemporal, entre outros, e o encaixe das peças deste quebra-cabeças foi o meu remédio amargo para as feridas expostas e  me fez parar de cobrar dele o que o cérebro não pode mais entregar.

O diagnóstico definitivo foi sentenciado em uma frase que me marcou para sempre: ‘A máquina está quebrada’, disse o neurologista, e nessa metáfora encontrei também o analgésico para o desespero de exigir o óbvio de quem já não habita mais a própria mente. A irreversibilidade do dano cerebral é, ao mesmo tempo, meu luto e minha libertação; permitiu-me parar de buscar o homem que um dia ele foi para cuidar do doente que ficou. Não há conserto para o que um dia fomos. Aceitar essa falha no sistema é o alicerce para que eu possa, solitária, continuar reconstruindo nossa vida entre as ruínas. Aquela sentença técnica virou minha oração silenciosa e meu único consolo diante de tudo o que perdemos e as tempestades que enfrentamos.

A “máquina” não está apenas lenta; partes essenciais do seu sistema de operação foram desligadas pela doença. Aceitar esse laudo é respeitar o homem que ele foi, protegendo o que restou da sua dignidade em nome  do nosso filho.

E lembrar que nas aulas de ciências aprendi que o principal órgão do corpo era o coração porque ele é o responsável por bombear sangue para todo o corpo e demais órgãos. Desde, então, sempre me pego lembrando disso. Será mesmo?

Diante dessa jornada, percebo que, se o coração é o motor, o cérebro é o sentido. De nada adianta o sangue pulsar se o ‘centro de comando’ se calou; se a essência, o afeto e o julgamento — aquilo que nos torna humanos — sofreram um curto-circuito definitivo. Aceitar que partes essenciais do seu sistema operacional foram desligadas talvez ainda seja meu maior desafio. O laudo não é uma sentença de morte, mas uma certidão de realidade que não me dá outra escolha a não ser cimentar meus pés no chão.

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