Bolsonaro e a economia: atura ou surta

*Por Bernardo Nigri 

A segunda metade de outubro vem se mostrando como um momento definidor para a postura do Palácio do Planalto para 2022, e tem dado as cartas para a mão final do governo no restante do ano. Em meio a pressões da CPI da Pandemia, alta de preços de insumos e combustíveis, demissões importantes da equipe econômica e anúncios de expansões de programas sociais, o presidente Bolsonaro é colocado na parede sobre que caminho tomar. As opções no momento são seguir suas promessas de campanha de comprometimento com a agenda econômica liberal ou embarcar de vez na turnê eleitoral de 2022 com medidas populares e de alto impacto fiscal. Tudo indica que o salto para segunda opção já está consumado.

“Dream until the dream come true”

Mergulhando ou não, o ministro Paulo Guedes sem dúvidas não sairá ileso dos imbróglios recentes. Nesta semana, duas novas baixas nas secretarias especiais (Tesouro Nacional e Tesouro e Orçamento) baquearam a confiança do mercado no saudoso “superministro”. Conforme o “Dream Team” cai, secretaria por secretaria, Bolsonaro ignora cada vez mais os apelos de Guedes para cumprir o teto de gastos e conter despesas. A previsão de vitória da proposta da ala política de R$ 400 para o Auxílio Brasil está próxima de se concretizar, seja qual for a origem dos recursos para bancar a expansão, e o risco fiscal já deixou de ser apenas risco há muito tempo. A questão do momento parece ser não quanto será direcionado para a medida, mas sim qual manobra fiscal será feita para viabilizá-lo. Enquanto isso, na Faria Lima, os anseios do mercado por uma política econômica liberal já estão guardados no fundo do baú, cristalizando-se cada vez mais como nada mais que um sonho.

Tem uma cobra na minha bota!

Se na economia crescem os incômodos, no Senado, Bolsonaro continua com uma série de pedras em seu sapato. Com a confirmação da saída do presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, do DEM para o PSD, um novo rival presidenciável se confirma na chefia do Senado, em meio à tramitação de diversas medidas com potencial de afetar o Bolsonaro. A mais latente é sem dúvida o relatório final da CPI da Pandemia. O presidente deve sofrer ainda mais fritura e desgaste público nas próximas semanas, quando o G7 da CPI buscará fazer a maior quantidade de barulho possível ao votar o relatório final que foi oficialmente apresentado nesta semana por Renan Calheiros (MDB/AL). Um dos poucos respiros do Planalto nesse sentido é a proximidade com duas figuras chave no encaminhamento das denúncias: o PGR, Augusto Aras, e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP/AL). Por bem ou por mal, ambos devem conter suas críticas e segurar as pontas dos impactos mais práticos do relatório de Renan em proceder com o indiciamento do Planalto e aliados por crimes comuns e de responsabilidade.

Congresso? Presente

A próxima semana reserva outra novidade em Brasília: a retomada definitiva dos trabalhos presenciais na Câmara dos Deputados. Em regime híbrido ou remoto desde o início da pandemia, a Casa enfim contará com maior presença física de parlamentares, que deverão a partir de agora bater ponto e devem realizar debates de grande impacto até o fim do ano. A esperança do governo é de avanços em pautas positivas junto à base mais consistente verificada na Câmara baixa, ainda que exista o risco de quóruns menores nas votações devido à impossibilidade de votação remota em alguns casos. Na agenda imediata, temas críticos para a agenda política: a PEC dos Precatórios e a PEC da Vingança. Ambas sofreram movimentações importantes nessa semana, mas enfrentam um cenário não muito favorável. Os precatórios foram aprovados na Comissão Especial da Câmara, mas ainda podem demorar para ser apreciados: a medida ainda precisa passar por duas votações no plenário da Câmara e repetir o processo no Senado.

Sempre cabe mais uma (crise)

Por fim, uma outra grande crise assusta o Executivo no meio do mar já revolto: o preço dos combustíveis. O PLP 11/2020, aprovado pela Câmara, aguarda deliberação no Senado e é a principal aposta para atenuar o aumento no valor da gasolina, mas não só é considerado por muitos como insuficiente para resolver o problema, como também pode ser modificado com a insatisfação de governos estaduais que podem perder arrecadação. Não bastasse isso, caminhoneiros autônomos ameaçam greve a partir de novembro. Bolsonaro reagiu rapidamente, novamente às custas da agenda liberal, mas resta a questão se o auxílio diesel de R$ 400 reais é uma solução viável de longo prazo. O mercado aposta que não, mas as próximas semanas devem continuar a indicar como Bolsonaro vai jogar com as cartas que recebeu.

*Às sextas-feiras, o Núcleo de Inteligência e Análise Política (NIAP) da BMJ Consultores Associados publica no blog um panorama com os principais fatos políticos da semana. Nesta semana, a autoria é do consultor Bernardo Nigri.

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