Feriadão em Brasília

*Por Lucas Fernandes

Pátria Amada ou Armada?
A política brasileira não dá trégua nem em semana com dois dias a menos. O assunto da vez foram as críticas veladas ao Governo Federal feitas pelo arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes. Durante a homilia na missa solene em homenagem à padroeira do Brasil, Dom Orlando rechaçou as políticas de flexibilização ao armamento e condenou as mentiras e as fake news, além de fazer um apelo pela vacinação em massa. O termo “homilia” vem do grego e significa conversa familiar. A etimologia da palavra ilustra bem o posicionamento político do Arcebispo de Aparecida, que no último ano já havia ganhando destaque por criticar o fim da operação Lava Jato e levantar uma preocupação sobre o aumento da impunidade.

 Entre a cruz e a espada
A fala de Dom Orlando evidencia a resistência de segmentos da Igreja Católica em relação ao Governo Federal, mas essa postura ainda está longe de ser total, já que algumas alas veem com bons olhos a agenda conservadora de Bolsonaro. A própria visita de Bolsonaro ao Santuário de Aparecida horas depois demonstra isso. O Presidente foi aplaudido e vaiado pelos fiéis que estavam presentes. Vale reforçar que o Brasil é um dos países com o maior número absoluto de católicos, mas a Igreja não tem demonstrado uma capacidade tão coesa no grau de influência na definição de votos dos eleitores que se afirmam seguidores desta religião. Em tempo, é oportuno dizer que a última pesquisa PoderData apontou que diminuiu a rejeição de Bolsonaro entre os católicos, mas o percentual segue muito acima quando comparado com a rejeição dos evangélicos (57 contra 37%).

Sobrou para o Senado
Conforme prometido por Lira, o Plenário da Câmara aprovou a proposta que altera os critérios para o cálculo da alíquota de ICMS sobre combustíveis. A medida é uma tentativa de frear a inflação e mitigar as conversas sobre uma nova greve de caminhoneiros. Os governadores não têm gostado de serem tratados como os vilões desta pauta e já intensificaram as conversas com o Senado, casa onde tradicionalmente têm mais influência, em comparação com a Câmara. O presidente do Senado, que mantém as tratativas para se viabilizar como candidato à Presidência, encontra-se no dilema de pautar uma medida com forte apelo popular ou aproveitar a oportunidade para barrar a proposta, a fim de consolidar alguns palanques regionais. O texto aprovado pelos deputados pode gerar a perda de receitas na ordem de R$ 24 bilhões para os estados e, se passar pelo Senado, certamente receberá contestação em esfera judicial.

As raras coincidências da política
Com menos dias úteis, o governo termina mais uma semana sem uma solução para a ampliação dos programas de transferência de renda. A PEC que viabiliza o parcelamento dos Precatórios não teve avanços concretos além do aceno de Lira de que a medida será pauta na próxima semana. Contudo, as dificuldades recentes do Planalto na negociação de medidas menos polêmicas do que esta acenderam um sinal de alerta entre os aliados do Presidente. Com Paulo Guedes ainda cumprindo agenda nos EUA, Bolsonaro se reuniu com diversos ministros nesta sexta-feira (15) para tratar do tema. A indefinição na questão dos precatórios tem intensificado o burburinho da prorrogação do Auxílio Emergencial até janeiro de 2023, a fim de garantir um aumento para as famílias que já estão incluídas no Bolsa Família. Entre os participantes, destacam-se Flávia Arruda (Secretaria de Governo), Tarcísio Freitas (Infraestrutura), Tereza Cristina (Agricultura), Ciro Nogueira (Casa Civil), João Roma (Republicanos), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Onyx Lorenzoni (Trabalho). Coincidências são raras na política, logo chama atenção o fato de todos serem considerados pré-candidatos para as próximas eleições.

As provações de Alcolumbre
Nos últimos dias o senador Davi Alcolumbre (DEM/AP) tem dobrado sua aposta e insistido que não irá pautar a sabatina de André Mendonça para a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Desde que foi indicado por Bolsonaro, o ministro “terrivelmente evangélico” tem sofrido uma grande resistência entre os senadores, mas até os opositores mais ferrenhos de Bolsonaro têm avaliado nos bastidores que já chegou o momento do nome ser pautado na Comissão de Constituição e Justiça. Alcolumbre tem colecionado desavenças com o Planalto desde que deixou a presidência do Senado, mas a pressão vinda de seus pares e do eleitorado evangélico tem se tornado cada vez mais difícil de ser sustentada. Alcolumbre faz parte do 1/3 dos senadores que precisarão disputar a eleição no próximo ano e seus adversários já trabalham para complicar sua candidatura desde o apagão registrado no Amapá no fim do ano passado.

Do Cidade Alerta ao Brasil Urgente
Enquanto a disputa pela Presidência segue focada na polarização entre Lula e Bolsonaro, a terceira via ganha mais um postulante. Desta vez, quem anunciou a intenção de concorrer a uma hospedagem de quatro anos no Palácio da Alvorada foi o apresentador José Luiz Datena. Nas últimas eleições, Datena já tinha ensaiado entrar na disputa, mas agora tem se posicionado com mais assertividade sobre o tema. O caminho, contudo, não será fácil. O apresentador é filiado ao PSL, que se uniu ao DEM e passará a ser o União Brasil. Nas prévias do novo partido, terá que disputar espaço com nomes de peso da política tradicional como Rodrigo Pacheco e o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Se não for o escolhido pelo partido, a tendência é que outras portas surjam, sendo aventada inclusive sua entrada em uma chapa com Ciro Gomes (PDT). Um dos principais trunfos de Datena neste momento é sua baixa rejeição em comparação com outros pré-candidatos e seu reconhecimento como uma figura forte no discurso de combate à corrupção.

*Às sextas-feiras, o Núcleo de Inteligência e Análise Política (NIAP) da BMJ Consultores Associados publica no blog um panorama com os principais fatos políticos da semana. Nesta semana, a autoria é do consultor Lucas Fernandes.

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