Que comece o Jogo dos Tronos

Se a política brasileira fosse uma série, Game of Thrones seria uma das melhores representações. É necessário buscar alianças para manter o poder e sobreviver. Nos últimos dias, vimos uma aliança entre a Casa Lannisters e Baratheon para tentar dominar Westeros. O DEM e o PSL finalmente confirmaram sua fusão e o novo partido, União Brasil, deve ser uma das maiores bancadas no Congresso. O intuito central é formar uma bancada robusta que tenha hegemonia entre os partidos do centrão e prevalência no comando da Câmara e do Senado, mas a nova legenda ainda avalia as possibilidades de lançar seu próprio candidato ao trono de ferro. Em meio a tanta disputa pelo poder, fica difícil prever se a nova casa terá força suficiente para lançar uma candidatura competitiva para o Palácio do Planalto. Se em Game of Thrones, you will win or die, é necessário acompanhar qual será a estratégia da nova casa para sobrepor a polarização Lula-Bolsonaro: aliança ou projeto próprio?

Paulo Guedes Qyburn? 

Westeros parece ter entrado em chamas após a divulgação da investigação Pandora Papers apontar que o ministro Paulo Guedes tem empresa offshore em paraíso fiscal. A situação política de Guedes já não tem sido das melhores em Brasília. Os aliados do Trono de Ferro parecem apostar todas as fichas para pedir a cabeça do ministro. Há dúvidas se Guedes ainda é de fato a Mão do Rei em Game of Thrones. Tudo indica que o Planalto tem, por muitas vezes, recorrido aos Mestres dos Sussurros para se aconselhar quais devem ser as medidas implementadas frente a esse cenário de disputa pelo trono. O Pequeno Conselho (a ala política do governo), que já não é tão pequeno assim, não esconde sua pretensão de dominar as regras do Orçamento em Brasília e flexibilizar o Teto de Gastos para implementar o Auxílio Brasil como bandeira para as próximas eleições. O presidente Bolsonaro poderia estar entre um cerco de um jogo em que uma de suas únicas fichas seria o tudo ou nada.

A Casa dos Dragões

O PT governou o Brasil por muito tempo e já se organiza para tentar retomar o trono de ferro. A principal estratégia do ex-presidente Lula – que, apesar de ainda não ter confirmado sua candidatura ao trono, tem se movimentado entre diversas casas para construir alianças em Westeros. O ex-presidente já organiza uma espécie de gabinete para definir sua agenda até meados do ano que vem. De início, a ideia é formar alianças com aliados históricos do PT, mas o jogo dos tronos requer alianças um tanto quanto improváveis, e o petista não descarta acenar a segmentos do centrão para potencializar sua candidatura. O PSD já descartou a possibilidade de apoiar Lula no primeiro turno e a sigla propõe ter seu próprio candidato na disputa. Entre barganhas e alianças, o PT poderia renunciar a candidaturas em recintos importantes como Rio de Janeiro, Acre, São Paulo, Pernambuco e Espírito Santo. O cenário atual indica o apoio ao PSB nesses estados. Assimilamos o partido com a Casa Stark? Acho que seria propício. É preciso observar se a Casa Targaryen conseguirá unificar os sete reinos de Westeros – cenário pouco provável. Para evitar um final similar ao de Daenerys, Lula tem optado por uma participação muito mais fora dos holofotes políticos e evitando falas polêmicas. Conhecendo o passado Targaryen, será possível manter esse discurso moderado por muito tempo?

O destino do Rei dos Ândalos e dos primeiros homens

O PTB realizou uma mega reestruturação para atrair o presidente Bolsonaro para o partido. O presidente da legenda, Roberto Jefferson, que é aliado de Bolsonaro, autorizou inclusive a expulsão de sua filha, Cristiane Brasil, e de nomes ligados ao segmento bolsonarista do PTB. Eles resistiam às mudanças para encontrar espaço para Bolsonaro. Quando Cersei Lannister falava que “poder é poder”, ela não estava de brincadeira e seguramente fez um trabalho de campo em Brasília. O presidente Bolsonaro tem algumas opções de partido, mas a ala política estima que uma das melhores oportunidades seria migrar para um partido bem estabelecido, com grandes aportes do Fundo Eleitoral e Partidário e que tenha grande influência em Dorne (Nordeste). O PP de Arthur Lira e Ciro Nogueira parece ser uma das melhores opções, mas Bolsonaro não descarta conversas com o Patriota, PTB e PRTB. Bolsonaro tem a máquina pública em suas mãos e nas negociações com esses partidos. Eu só consigo me lembrar do diálogo entre Cersei e o Petyr “mindinho” para demonstrar que quem dita as regras sobre o jogo é quem está no poder.

E a economia de Westeros? 

Em Game of Thrones pouco se ouvia falar sobre o Banco de Ferro de Braavos, mas a pauta econômica ainda é um fator importante para a disputa do trono. As expectativas sobre a inflação continuam altas e o valor esperado para o final do ano passou de 8,45% para 8,51%. O reajuste acontece após o Copom admitir que, provavelmente, não será possível cumprir com a meta inflacionário deste ano.

*Às sextas-feiras, o Núcleo de Inteligência e Análise Política (NIAP) da BMJ Consultores Associados publica no blog um panorama com os principais fatos políticos da semana. Nesta semana, a autoria é do consultor Nicholas Borges

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