Um caos chamado 7 de setembro

*Por Nicholas Borges

Fogo no parquinho

As mobilizações de 7 de setembro deram o tom para a crise institucional em Brasília. O presidente Bolsonaro participou nos atos em Brasília e São Paulo. Manteve seu discurso incisivo contra o Poder Judiciário e achou que a alta mobilização serviria para intimidar o STF. Não aconteceu. As manifestações foram grandes, mas não tiveram a adesão esperada pelos governadores. A classe política já se antecipava para todos os cenários possíveis e intensificou o debate sobre o impeachment, um recuo no tom foi preciso.

Congresso tímido, Judiciário nem tanto…

Se por um lado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco optaram por uma postura não tão conflitiva com o Poder Executivo, retrucando alguns pontos das falas de Bolsonaro implicitamente, o ministro Luiz Fux teve uma posição antagônica. Na sessão do STF no day after das mobilizações, Fux, em bom e claro tom, reforçou que as falas do presidente Bolsonaro poderiam ser enquadradas como crime de responsabilidade, deixando claro que a pressão sobre um possível processo de impeachment poderia vir mais além da oposição no Congresso Nacional. Uma das estratégias do Judiciário, a depender do tom das mobilizações, seria mobilizar outras agendas além das prerrogativas do Parlamento sobre o possível afastamento de Bolsonaro. Luís Barroso, presidente do TSE (corte que pode tornar Bolsonaro inelegível), fez as declarações mais duras e não poupou adjetivos como “farsante”.

Chama ele que ele vem!

O ex-presidente Michel Temer (MDB) sempre atua como bombeiro do Palácio do Planalto. Dessa vez não poderia ser diferente. O presidente Bolsonaro convidou Temer para tentar remediar a situação que ele mesmo se colocou. Em um tom mais pacífico, mas pouco arrependido, Michel Temer convenceu Bolsonaro a abaixar um pouco a bola nas críticas. Não foi algo tão unilateral, claro. Os assessores do Planalto que também estiveram no encontro afirmam que Temer também “puxou a orelha” de Moraes. O curioso dessa história é que apesar das desavenças históricas de Bolsonaro com o PT, é justamente o único ministro do STF indicado por Temer o mais criticado pelo Presidente da República.

Volta o cão arrependido?

Para muitos a nota oficial de Bolsonaro, redigida por Temer, representou um recuo inesperado do Presidente. Sabemos que teoria e prática precisam andar juntas, claro, mas por ora o gesto de Bolsonaro busca arrefecer o clima de tensão em Brasília. Com certeza as reações negativas sobre a manutenção do conflito por parte de Bolsonaro pesaram muito na decisão, mas a nota também é uma tentativa de blindar o governo de possíveis investigações relacionadas ao 7 de setembro no âmbito do STF. Preocupa o governo a possibilidade de que o PGR Augusto Aras seja convencido a adotar uma postura mais autônoma em relação ao Planalto já que, elas por elas, Aras faz parte da mesma cúpula que Bolsonaro tanto critica. Claro, alguns apoiadores foram às redes sociais insatisfeitos com o recuo do Presidente, mas a tendência é que a nota não esvazie o apoio do eleitorado mais fiel à Bolsonaro, já que os vídeos ainda circulam nos grupos de WhatsApp que apoiam o Presidente.

Centrão, please don’t leave me

O recuo também foi uma estratégia para conter a perda de governabilidade no Congresso. O discurso inflamado de Bolsonaro tem incomodado não só a oposição e o STF, mas segmentos da sua base política. O centrão parecia ter dado um ultimato para que as relações em Brasília melhorassem. O desembarque do grupo poderia fortalecer a retórica de apoio ao impeachment. No entanto, o centrão deve continuar no esquema “toma lá, dá cá” tão criticado por Bolsonaro para se manter na base de apoio. É… O clima em Brasília ainda está quente (e não é apenas um trocadilho). Vamos ver como o governo irá reagir às manifestações convocadas pela oposição para os próximos dias. #Atento.

TratoLira

Enquanto o Senado fez ao título de “casa da moderação” e cancelou quase todas as reuniões previstas para esta semana, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP/AL), não se abalou com os acampamentos na Esplanada dos Ministérios. Na quinta-feira (9) conseguiu aprovar com ampla maioria o texto-base do Código Eleitoral. A medida é polêmica e na prática traz uma série de mecanismos que diminuem a transparência e criam barreiras para a atuação da justiça eleitoral. Partidos de oposição prometem se empenhar na mudança do texto durante a votação dos destaques, mas não criaram grandes empecilhos nesta primeira fase de votações. Em tempo, a medida estabelece uma quarentena de cinco anos para que militares e juízes possam se candidatar. A aprovação deste dispositivo frustraria planos do Planalto em lançar candidaturas de militares que hoje ocupam cargos de primeiro e segundo escalão nos ministérios, além de enterrar de vez a chance de Sergio Moro disputar a Presidência.

*Às sextas-feiras, o Núcleo de Inteligência e Análise Política (NIAP) da BMJ Consultores Associados publica no blog um panorama com os principais fatos políticos da semana. Nesta semana, a autoria é do consultor Nicholas Borges.

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