A tensão entre Doria e Pazuello na corrida pela vacina

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou neste domingo (17) o uso emergencial das vacinas Coronavac e da Universidade de Oxford contra a COVID-19 no Brasil. A taxa de eficácia da Coronavac é de aproximadamente 50,4% e a de Oxford é de 70,42%. Minutos após a decisão, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), participou de uma cerimônia onde ocorreu a primeira vacinação fora da fase de testes em território nacional e voltou a acusar o governo federal de negligência e de não adotar uma abordagem científica no enfrentamento da pandemia.

O ministro da Saúde, General Eduardo Pazuello, fez duras críticas a Doria e classificou a ação como uma “jogada de marketing”. Inicialmente, Pazuello anunciou o início da campanha nacional de vacinação para quarta-feira (20), mas por pressão dos governadores recuou e autorizou o início a partir das 17h desta segunda-feira (18).

A decisão da Anvisa foi amplamente celebrada nas redes sociais e foi considerada uma vitória política para Doria e uma derrota para o presidente Jair Bolsonaro.

O governo federal apostou durante muito tempo no protocolo de tratamento precoce, que possui controvérsias quanto a sua real efetividade. Além disso, o Presidente e o Ministro da Saúde acabaram de passar por uma semana de forte desgaste devido ao colapso do sistema de saúde no estado do Amazonas, que ficou sem oxigênio para tratar os pacientes com COVID-19 e trabalha com a capacidade de leitos no limite. Neste sentido, o Palácio do Planalto fica em uma situação de grande fragilidade, que se soma ao fim do pagamento do auxílio emergencial e pode gerar uma desidratação na popularidade do governo.

Doria se fortalece, mas é importante considerar que o governador de São Paulo também vinha passando por uma situação de desgaste após a proposta polêmica de retirar subsídios estaduais e sua viagem a Miami no final do ano passado. Neste sentido, Bolsonaro deve atuar nos bastidores para fragilizar Doria a fim de inviabilizar sua candidatura presidencial em 2022. Uma das estratégias é usar o desconforto de muitos governadores, que veem com maus olhos o início da vacinação em São Paulo em detrimento de outros estados. Para mitigar esse efeito, Doria tem tentado atuar de maneira mais cooperativa e já se comprometeu a enviar alguns milhares de doses para o estado do Amazonas, por exemplo.

A derrota política do governo federal também aumenta a pressão pela demissão de Eduardo Pazuello. O ministro da Saúde já era um dos principais cotados para deixar o cargo em uma eventual reforma ministerial e esse movimento tem se intensificado após os últimos desdobramentos da crise sanitária. Até mesmo integrantes do núcleo militar avaliam que a presença de Pazuello pode contaminar a imagem das Forças Armadas.

Além disso, setores da oposição (tanto da esquerda, quanto da centro-direita) começam a fortalecer o discurso a favor da abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro. Esse tema deve entrar nas negociações pela presidência da Câmara e acabar embaralhando a composição de forças entre os principais candidatos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *