O Dia D americano

Essa terça-feira (3) é o dia D das eleições norte-americanas. E não estamos falando da emblemática data de 1944 em Normandia. Hoje é o dia que os eleitores vão às urnas em um clima de alta polarização para definir a disputa presidencial, mas também para eleger representantes (deputados), senadores e desembargadores.

Para a disputa presidencial, as pesquisas ainda apontam uma vantagem de aproximadamente nove pontos para o democrata Joe Biden sob o atual presidente Donald Trump. Esse percentual é o dobro da vantagem de Hillary Clinton nas eleições de 2016. Outro dado importante dá o tom para a disputa desse ano. Quase 100 milhões de norte-americanos já votaram através do sistema de voto antecipado – correios ou votos presenciais antecipados. Esse percentual equivale a mais de 70% dos votos das últimas eleições em 2016. Mesmo atrás nas pesquisas eleitorais, o presidente Donald Trump ainda confia em repetir o feito da última disputa, contando com uma virada nos principais swing states.

Alguns cenários dessa disputa:

  • Cenário 1: As pesquisas acertam. Joe Biden leva aproximadamente 351 delegados e Donald Trump 187.
  • Cenário 2: Resultados pouco diferentes das projeções eleitorais, mas com uma vitória de Joe Biden com 335 delegados contra 203 de Donald Trump.
  • Cenário 3: Joe Biden supera as previsões eleitorais com uma margem de diferença de 10%, levando 415 delegados contra 123 de Donald Trump.
  • Cenário 4: As pesquisas acertam a preferência de Donald em alguns swing-states, principalmente na Flórida. O estado é decisivo nas eleições. Esse cenário traria um resultado muito apertado, mas Joe Biden ainda venceria com 270 delegados e Trump com 268.
  • Cenário 5: Donald Trump supera as estatísticas e vence mais uma vez nos estados mais importantes, como Pensilvânia, Michigan, Wisconsin e Minnesota. A região é conhecida como cinturão de ferrugem. Nesse cenário, se vencesse também em Ohio e Iowa, Trump levaria 307 delegados contra 231 de Joe Biden.
  • Cenário 6: Donald Trump é reeleito devido ao apoio massivo das regiões do Nordeste, Meio-Oeste e em algum swing-state. Cenário pouco provável.

O recorde no número de votos antecipados já deixa claro o grande clima de polarização, que pode ser acentuado com a perspectiva de que não seja possível determinar o ganhador na noite desta terça-feira (3). Para cada estado norte-americano existe uma regra diferente sobre quando os votos por correspondência podem ser abertos, verificados e computados. Tais disparidades trazem maior insegurança e devem estimular a judicialização da contagem de votos.

Dois estados importantes na disputa, Pensilvânia e Wisconsin, por exemplo, só começarão a contabilizar os votos por correios após o fim do dia eleitoral – o que pode fazer com que Trump apareça na frente no início da contagem e seja superado por Biden nos próximos dias. Isso pode gerar o fenômeno que tem sido apelidado de “red mirage” ou “blue shift” (miragem vermelha ou virada azul). Trump pode tirar proveito deste cenário e se declarar vitorioso, não aceitando um resultado em que Biden seja eleito. Neste sentido, a Suprema Corte, que possui ampla maioria Republicana, terá um papel decisivo na validação do pleito e não são descartados episódios de vandalismo e conturbação social nas principais cidades americanas nos próximos dias.

O governo brasileiro já se prepara para ambos cenários. O presidente Jair Bolsonaro foi às redes sociais para defender a reeleição de seu tradicional aliado, Donald Trump. Em uma entrevista para a CNN Brasil, Bolsonaro afirma que a reeleição do republicano “será boa para as relações comerciais e diplomáticas com o Brasil.” No entanto, o Palácio do Planalto também já considera uma possível eleição de Joe Biden, que durante sua campanha fez duras críticas à gestão ambiental do governo brasileiro.

Para minimizar os possíveis atritos com uma gestão Biden-Harris, o governo brasileiro poderia apostar em ponte de articulação com parlamentares democratas mais ligados ao centro do partido. Na visão do Planalto, a ala mais moderada dos democratas pode fazer com que os EUA continuem adotando uma postura pragmática em relação ao Brasil, principalmente quando se considera o alinhamento do Brasil quanto à condenação do regime de Nicolás Maduro na Venezuela e sobre diminuição da participação chinesa na economia.

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