A possível criação de uma Frente Democrática

O final de semana foi marcado por manifestações a favor e contra o presidente Jair Bolsonaro. Em Brasília, na madrugada de sábado (30), cerca de 30 pessoas realizaram uma manifestação em frente ao Supremo Tribunal Federal. No domingo (31), como tem ocorrido nas últimas semanas, o Presidente cumprimentou manifestantes favoráveis ao fechamento do Congresso e do STF na Esplanada. Na ocasião, Bolsonaro afirmou que “tudo aponta para uma crise” com os outros poderes. Também no domingo, outras capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, registraram protestos contrários e a favor do Presidente. Em São Paulo, houve confronto entre os dois grupos.

As manifestações acompanham o lançamento de campanhas de união contrárias ao presidente. O manifesto “Estamos Juntos”, publicado no sábado (30), teve apoio de mais de 300 políticos e artistas entre a centro-direita e a esquerda – como o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Nas mídias sociais, a proposta de uma frente ampla contra Bolsonaro foi expressa na campanha #Somos70porcento.

Espelhando esse movimento, parlamentares também propuseram a criação de uma frente no Congresso como resposta aos ataques do chefe do Executivo. Embora liderado em grande parte por partidos de esquerda, é possível que o movimento conte com a articulação do Presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/RJ), e de partidos de centro e centro-direita como PSDB e MDB.

Embora protestos a favor de Bolsonaro venham ocorrendo semanalmente em Brasília, estes foram os primeiros protestos da oposição desde o início da pandemia. Isso mostra que a crise política se acirrou a ponto de praticamente sobrepor a crise sanitária. É possível que os movimentos também tenham sido impulsionados pelo clima das manifestações nos Estados Unidos. A flexibilização das medidas de isolamento social é outro fator que pode ter mobilizado esses movimentos.

Em meio aos pedidos de fechamento do Legislativo e Judiciário, a pesquisa Datafolha divulgada semana passada sinaliza que os dois poderes, tradicionalmente mal avaliados pelos brasileiros, vêm ganhando popularidade. A criação de uma frente ampla de parlamentares significa que Bolsonaro deve enfrentar maior oposição no Congresso, e deve reunir, além dos partidos de esquerda e centro-direita, alguns “dissidentes” do Centrão, como o deputado Marcelo Ramos (PL/AM). É possível também que discussões sobre impeachment ganhem força. Isso deve acelerar o processo de aproximação de Bolsonaro com o Centrão a fim de conseguir votos suficientes (170) para barrar a abertura de um processo. Neste caso, o Congresso passaria a refletir o clima de polarização na sociedade, com um bloco favorável ao Presidente, reunindo o Centrão e deputados bolsonaristas, e um bloco de oposição. No entanto, também ainda não há indícios do quão sólida a frente ampla contra Bolsonaro será. A tendência também é que o assunto avance mais rapidamente conforme o fim da crise do coronavírus.

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