A cloroquina e o futuro do Ministério da Saúde

O Palácio do Planalto ainda avalia os impactos da saída de Nelson Teich do Ministério da Saúde. Para alguns assessores, o presidente Jair Bolsonaro teria afirmado que pretende ter cautela na escolha do futuro ministro da Saúde e que o ministro interino, general Eduardo Pazuello, deve permanecer no comando da pasta pelas próximas semanas ou até o fim da pandemia.

A saída de Teich abre espaço para a disputa entre os núcleos do governo pelo comando da pasta. Entre os mais cotados pelo núcleo ideológico estão Osmar Terra, deputado pelo MDB e uma das principais vozes no Congresso pelo fim do isolamento social, e Ítalo Marsili, psiquiatra e aluno do ideólogo Olavo de Carvalho. O centrão também pressiona por cargos no órgão e tem como principal opção Ricardo Barros (PP/PR), ex-ministro da Saúde de Temer e vice-líder do governo. A permanência de Pazuello traz menos ruptura do ponto de vista da gestão do Ministério sobre a crise, mas é esperado que o Ministro interino sofra pressão do Presidente e do núcleo ideológico para adotar um discurso mais incisivo pelo fim das medidas de isolamento social e a favor do uso da cloroquina.

Atualmente, o órgão orienta que o medicamento pode ser utilizado em casos graves do  coronavírus, mas o presidente Jair Bolsonaro advoga a ampliação do uso para casos leves. É esperado que o Ministério divulgue nos próximos dias uma diretriz autorizando o uso para casos leves, desde que haja consentimento do paciente e de que ele seja informado sobre os possíveis efeitos colaterais.

A decisão de postergar a nomeação de um substituto de Teich tem sido avaliada como uma das melhores alternativas para evitar maiores desgastes institucionais ao longo da crise sanitária. Nesse sentido, o apoio dos partidos do centrão é peça-chave para amenizar os ânimos políticos das recentes exonerações. Ricardo Barros tem feito acenos pelo fim do isolamento social ao mesmo tempo em que atua como um dos principais interlocutores da permanência de Pazuello.

Apesar do grupo exercer pressão para lotear cargos no primeiro e segundo escalão da pasta, a avaliação geral é que o sucessor de Teich enfrentará um forte desgaste, pois será responsabilizado pelo crescente número de casos e mortes decorrentes do coronavírus. A estratégia do centrão é assumir o comando do Ministério após o fim da pandemia, mas esse movimento pode ser frustrado pelo núcleo ideológico, que tem nomes dispostos a assumir o comando da pasta em meio à crise sanitária. Vale observar que Bolsonaro tem a difícil missão de fortalecer seus vínculos tanto com o núcleo ideológico quanto com o centrão para manter o engajamento popular e assegurar sua governabilidade no Congresso.

Assim como no caso de Mandetta, a ampliação do uso da cloroquina foi uma das fontes de desgaste que culminou a exoneração de Teich na última sexta-feira (15). No entanto, o uso do medicamento tem se tornado uma das principais linhas discursivas de Bolsonaro, mesmo que alguns estudos locais e internacionais ainda não comprovem eficácia contra o coronavírus.

É válido observar que a nova recomendação do Ministério da Saúde deve passar por um pente fino da equipe de assessoramento jurídico da Presidência, já que pode haver implicações jurídicas e administrativas se for avaliado que a medida trouxe mais prejuízos do que benefícios para a população. 

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