Bolsonaro e o vídeo ministerial

Nesta terça-feira (12), a Polícia Federal exibiu a um grupo restrito – composto por representantes da Procuradoria-Geral da República, do ex-ministro Sérgio Moro e da Advocacia-Geral da União (AGU) – a íntegra do vídeo da reunião ministerial que ocorreu no dia 22 de abril.

Em seu depoimento, Moro alegou que o presidente Jair Bolsonaro havia cobrado nesta reunião a substituição no comando da Polícia Federal e da Superintendência do órgão no Rio de Janeiro por razões políticas. O vídeo faz parte do inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar as acusações feitas por Sérgio Moro ao deixar o governo. Segundo relatos divulgados na imprensa, Bolsonaro reforça que as mudanças no comando da PF no Rio de Janeiro seriam necessárias pois algumas investigações do órgão miravam diretamente em seus familiares e parlamentares ligados ao presidente.

Em entrevista, Bolsonaro afirmou ontem (13) que em momento algum citou as palavras ‘Polícia Federal’ ou ‘superintendência’. Em outra frente das investigações, os ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (GSI) depuseram na terça-feira (12) e negaram interferência política do Presidente. Segundo Ramos, durante a reunião, Bolsonaro se queixou da qualidade geral dos relatórios de inteligência produzidos e, durante sua fala, não se referia à Polícia Federal. A ameaça de demissão seria na verdade a Heleno e a preocupação era com a segurança pessoal. Contudo, ambos confirmaram que Bolsonaro se queixou da Polícia Federal quando tratou dos relatórios de inteligência que desejava.

O ministro Celso de Mello, relator do caso no STF, deu um prazo de 48 horas para que os representantes envolvidos no inquérito opinem sobre a divulgação do material. A defesa do ex-ministro Sérgio Moro defendeu a divulgação na íntegra, mas os representantes do Palácio do Planalto defendem que o material não se torne público.

Até o momento, não é possível ter maior clareza sobre o verdadeiro teor do material. Se o conteúdo confirmar os relatos divulgados, Bolsonaro ficará em uma situação mais crítica e terá mais dificuldade em se defender das acusações de Moro.

É importante destacar que o ex-presidente Michel Temer se livrou de uma situação parecida com essa, mesmo tendo índices de popularidade inferiores aos de Bolsonaro. No caso de Temer, a formação de uma aliança sólida com diversos partidos no Congresso e a perspectiva de aprovação de uma agenda reformista defendida pelo mercado contribuíram para o arquivamento das denúncias.

Bolsonaro se baseia nesta experiência e tem feito movimento de aproximação com o centrão e de defesa à agenda do mercado. Por outro lado, a falta de consistência na interlocução com o Congresso e o desempenho precário do país no enfrentamento da crise sanitária podem desestabilizar os pilares de sustentação do governo e projetar um cenário mais favorável para o fim precoce do governo Bolsonaro.

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