Uma tarde com Dilma Rousseff – republicação atendendo a vários pedidos

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A crônica abaixo foi publicada neste blog em 31/10/2010. 

Uma tarde com Dilma Rousseff

Era uma sexta-feira, se não me engano. Eu, então presidente da Comissão de Indenização às Vítimas de Tortura, do Conselho Estadual de Direitos Humanos de Minas Gerais, em companhia da então secretária executiva da Comissão, Dra. Carolina, estávamos em Porto Alegre para a oitiva de vítimas do regime militar   torturadas em Minas Gerais (que moravam no Rio Grande do Sul), e que pleiteavam a indenização aprovada por lei estadual 13.187, de 1999.Estávamos num edifício da Secretaria de Estado da Justiça, naquele estado, quando no final da tarde, uma tarde chuvosa, adentrou em nossa sala uma mulher alta, com passos firmes e voz rompante. “Sou Dilma Rousseff e fui convocada para ser ouvida pela Comissão de Indenização”, exclamou a senhora, saudando-me com um forte aperto de mão (forte mesmo! Senti o aperto daquele cumprimento).No início da conversa, que tinha ares de depoimento (a Comissão precisava de da oitiva das vítimas para compor o processo de indenização) a então secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul começou falando com voz forte e desinibida de suas ações na militância política, à época do regime militar. Discorria, entre outras, sobre a ação da Val-Palmares, uma das organizações na qual militou, e descrevia, com detalhes todos os tipos de perseguição a que foram vítimas aqueles jovens “rebeldes” que lutam por um país livre e justo.Aos poucos o semblante pujante daquela mulher foi-se transformando. À medida que a narrativa entrava nos detalhes das várias formas de tortura, sua voz foi-se esmaecendo, os olhos começaram a marejar, a pujança do olhar transfigurava-se na visível dor revivida na narrativa.Eu e Dra. Carolina interrompemos o testemunho. Informamos àquela mulher marcada pela dor da violência institucional que já bastavam as narrativas e informações e que não seria necessário reviver tamanha dor; reviver algo tão profundo e visível aos nossos olhos.Um minuto de silêncio. Lágrimas enxutas. Rosto refeito. Levantou-se garbosamente Dilma Rousseff, aprumando seu corpo, acertando sua camisa. Cumprimentando-nos sorridente, despediu-se e, pelo corredor, saiu pisando firme, da mesma forma que entrou naquele corredor.É essa a imagem que guardo da nossa futura presidente. Mulher forte, guerreira, lutadora.Que essa força, a mesma firmeza, a capacidade de enfrentamento dos obstáculos e a inabalável fé a acompanhem nos próximos quatro anos

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