Uma primavera à brasileira?

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Ficaram conhecidos como “primavera árabe” os protestos que começaram em 2010 espraiando como uma onda revolucionária de manifestações no Oriente Médio e no Norte da África. Até agora, tem havido revoluções na Tunísia e no Egito, uma guerra civil na Líbia, grandes protestos na Argélia, Bahrein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Síria, Omã e Iémen e protestos menores no Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental.
Os protestos têm compartilhado técnicas de resistência civil em campanhas  envolvendo greves, manifestações, passeatas e comícios, bem como o uso das mídias sociais, como Facebook, Twitter e Youtube, para organizar, comunicar e sensibilizar a população e a comunidade internacional em face de tentativas de repressão e censura na Internet por parte dos Estados. No Brasil, aos poucos temos observado movimentos similares. Protestos organizados via redes sociais ocorreram no 7 de setembro e noutras ocasiões. Neste 12 de outubro vimos na TV vários protestos contra a corrupção, que se espalharam por dezenas de cidades brasileiras. Em São Paulo, cerca de 3.000 pessoas participaram do ato. Elas protestaram pelo fim do voto secreto no Congresso Nacional, pela aplicação da Lei da Ficha Limpa nas próximas eleições e pela transformação da corrupção em crime hediondo. Os participantes pediram também que 10% do PIB seja investido na educação. No Rio de Janeiro, segundo os organizadores, o protesto reuniu 2.500 pessoas. Em várias outras capitais os protestos tiveram esses mesmos objetivos. Aqui em Belo Horizonte, cerca de 500 pessoas participaram da marcha contra a corrupção. Jovens, adultos, idosos e muitas famílias se concentraram na Praça da Liberdade e depois seguiram em caminhada em direção à Praça Sete. Durante o trajeto, os manifestantes levaram faixas e cartazes e soltaram a voz num basta à corrupção no Brasil. Exigiam a punição aos “mensaleiros” e a aplicação da Lei da Ficha Limpa nas eleições municipais de 2012. Um cartaz chamava a atenção: comparava o salário de professores e outros servidores públicos com o de políticos. A passeata defendeu também a manutenção das funções do Conselho Nacional de Justiça, que vem sendo alvo de críticas pela atuação firme contra magistrados corruptos e criminosos. Na Praça Sete, o grupo se juntou ao redor o monumento do Pirulito e cantaram o Hino Nacional.  Além de BH houve protestos no interior do estado, em cidades como Uberlândia, Divinópolis, Juiz de Fora e Lambari. Essas manifestações independem de partidos políticos, sindicatos, igrejas ou outros movimentos organizados. Elas acontecem, na maioria das vezes, motivadas pela indignação das pessoas que, vencendo o comodismo e o individualismo característicos da sociedade contemporânea, se associam através das redes sociais para se manifestarem nos espaços públicos.  Tenho pensado que as redes sociais são os novos espaços de participação cidadã – a Ágora (*) dos nossos tempos. São democráticas, livres das amarras institucionais, permitem as mais variadas manifestações e possibilitam que todos os que se interessam por determinados temas se associem de variadas formas. Os partidos, sindicatos e outras instituições sociais tradicionais parecem que não dão conta das novas demandas sociais, principalmente dos jovens. Portanto, é num vácuo – constituído pela ausência de referencial simbólico na atualidade – que surgiu um imenso potencial associativo e de ampliação da cidadania,  através desses modernos mecanismos de integração social. Torço para que essas novas formas de participação democrática sejam capazes de sensibilizar os segmentos conservadores que não respondem mais ao desejo coletivo de ampliação da cidadania no nosso país. E tomara que esses protestos ajudem-nos a avançar rumo a uma sociedade verdadeiramente democrática. Em relação à corrupção, somente uma nota de rodapé. Além dos políticos corruptos é preciso denunciar também toda uma estrutura econômica montada para saquear os bens públicos. Ou seja, não podemos nos esquecer dos corruptores – em sua maioria pouco conhecidos (empresários, lobistas, agiotas, etc. poderosíssimos), mas que azeitam e fazem funcionar toda a engrenagem dos esquemas de corrupção. Tomara que estejamos vivendo uma primavera à brasileira – que para além dos protestos motive as mudanças estruturais geradoras de tantas mazelas em nossa sociedade. -.-.-.-.-.-.-.-. (*) A Ágora era a praça principal na constituição da pólis, a cidade grega da antiguidade. Enquanto elemento de constituição do espaço urbano, a Ágora manifestava-se como a expressão máxima da esfera pública, sendo o espaço público por excelência. Era nela que o cidadão grego convivia com o outro e onde ocorriam as discussões políticas e os tribunais populares: era, portanto, o espaço da cidadania. Por este motivo, a Ágora era considerada um símbolo da democracia direta, e, em especial, da democracia participativa.

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