Um tributo a Fábio Santos: ícone dos direitos humanos

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  Deixou-nos Fábio Alves dos Santos. O guerreiro que nasceu na cidade de Milagres (CE), na região do Cariri e cresceu num ambiente religioso, cujas devoções o impregnaram de uma mística a serviço dos mais pobres e sofredores até o último dia desta caminhada. Os pais tiveram treze filhos. No início da juventude entrou em contato com a obra de Dom Hélder Câmara, o revolucionário arcebispo de Olinda e Recife, apelidado pela imprensa pelega que apoiava a ditatura de “arcebispo vermelho”. Na década de 1970 foi estudar com os irmãos maristas, no Recife. Ali se aproximou ainda mais das ideias e da obra de Dom Helder Câmara. Estudou pedagogia e ciências sociais. Já em Caxias do Sul, trabalhou na pastoral juvenil. E em 1978 já estava em Propriá (SE), no trabalho junto aos pobres e aos jovens daquela Diocese. Atuava como professor em escolas católicas e nas horas livres acompanhava os índios Xokó-Kariri, na cidade vizinha de Porto Real (AL). Posteriormente, assumiu a coordenação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) do Nordeste, com amplo trabalho de articulação dos índios, dos agentes de pastoral da Igreja Católica, dos estudantes, professores e com a imprensa. Em 1985 veio para Belo Horizonte. Aqui, casou-se com Irma Reis e teve dois filhos: Amílcar, hoje advogado como o pai e Cecília, arquiteta. Ambos os filhos imbuídos do desejo de seguir os passos do pai: uma vida em favor dos mais pobres, como pudemos testemunhar suas considerações durante o velório. Nestas Alterosas começou o trabalho junto os índios, no Conselho Indigenista Missionário do Leste II. Em 1988 deixou o CIMI e começou a trabalhar com os sem-casa e aos presos, através das pastorais de Direitos Humanos, de Rua e Carcerária, todas ligadas à Arquidiocese de Belo Horizonte. Em 1990 terminou o Curso de Direito e começou a atuar como professor da PUC Minas. Com este curso, Fábio Alves se agigantou ainda mais na defesa dos pobres e oprimidos: tornou um dos advogados mais aguerridos e combatentes em favor das causas dos segmentos mais vulneráveis da sociedade: presos, moradores de rua, sem casa, dentre outros segmentos. Na Comissão Parlamentar de Inquérito do Sistema Prisional, de 1997, deu toda a sua contribuição, denunciando a indústria do preso que se instalara em Minas. Em parceria com os Irmãos Maristas, a PUC Minas e a Arquidiocese de Belo Horizonte, e acolhendo um pedido do então cardeal-arcebispo de Belo Horizonte Dom Serafim Fernandes de Araújo, elaborou, liderou e implantou o projeto que resultou na construção da primeira Associação de Proteção e Assistência ao Condenado da Região Metropolitana, depois batizada de Apac de Santa Luzia.  Deixando a Apac em pleno funcionamento, Fábio continuou seu militante trabalho de advogado popular, acompanhando as causas de comunidades dos sem-casa, através do Serviço de Assistência Judiciária da PUC Minas. Nesta empreitada, foi um dos idealizadores, incentivadores e defensores, no âmbito da Justiça, de muitas das ocupações urbanas que existem atualmente na RMBH. Na parceria com movimentos sociais e estudantes e professores da PUC Minas e da UFMG conseguiu que as novas ocupações já se iniciassem com planejamento urbano e forte organização social. Em 24 de setembro passado, numa carta de despedida aos amigos, Fábio faz uma profecia: “no mundo inteiro e, particularmente no Brasil, se sente um desejo incontido por mudanças no campo da política e da economia. A hegemonia da ideologia liberal e as perversas consequências do capitalismo parecem não encontrar mais guarida nos corações da humanidade. As guerras ainda alimentadas em diversas regiões do mundo apenas denotam a iniquidade do sistema capitalista e apontam em direção à imperiosa necessidade de mudanças. O Espírito, pois, não está dormindo. Está suscitando na história um novo movimento’. Obrigado, Fábio, querido amigo. Vá com Deus!(Texto baseado na carta dirigida aos amigos)

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