Somente a violência nos iguala?

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O Brasil convive, passivo e conformado, com uma guerra não declarada. Atualmente, as causas externas representam a terceira causa mais frequente de morte, configurando-se como inquestionável desafio aos gestores de políticas públicas. As causas externas de morbidade e mortalidade compreendem as lesões decorrentes de acidentes (relacionados ao trânsito, afogamento, envenenamento, quedas ou queimaduras) e de violências (agressões/homicídios, suicídios, tentativas de suicídio, abusos físicos, sexuais e psicológicos). Segundo dados de 2010, do Ministério da Saúde, as causas externas contribuem com mais de 138 mil óbitos anualmente no nosso país. Os cerca de 50 mil homicídios por ano tornaram o Brasil o segundo país mais violento do mundo em números absolutos. Apenas 8% desses casos são esclarecidos; ou seja, 92% ficam impunes. A brutalidade policial bate recorde. Temos a terceira maior população carcerária do mundo e a que cresce mais rápido – prende-se muito e mal. Resultado: em média 80% de reincidência criminal. Somando-se à violência real, a superexposição da violência na mídia, a perversidade dos criminosos, a banalização da vida e da morte, a baixa eficiência do poder público no combate e prevenção ao crime, o resultado é um estado de letargia coletivo: uma espécie de acomodamento e impotência à espera do pior. Desde os anos de 1980 a criminalidade violenta vem crescendo, principalmente nas regiões de grande vulnerabilidade social, em virtude da quase inexistência de políticas públicas de promoção da cidadania e deficiência em todo o sistema de justiça criminal. Enquanto se dizimavam milhares de vidas nos becos e ruas das favelas brasileiras, a sociedade assistia impávida a carnificina. Porém, como uma onda que espraia no lago quando atirarmos uma pedra, a violência foi ampliando seu raio de atuação. Em meados da década de 1990, os primeiros bairros de classe média das grandes metrópoles começaram a sofrer com o problema. A criminalidade urbana foi tomando novos contornos: seqüestros, assaltos em plena luz do dia, envolvimento de agentes públicos de vários escalões da República com o crime. Era a criminalidade organizada mostrando sua face. A classe média, percebendo-se fragilizada, começou a vocalizar seu protesto público. Provavelmente, porque passou a conviver e a ser vítima dessa violência. Dado que em relação aos direitos existem abismos que nos separam, lamentavelmente foi a violência que passou a nos igualar. Todos, de alguma forma, nos sentimos reféns do crime e do medo. Ora, se o problema é coletivo, deveríamos lutar contra essa aparente impossibilidade de enfrentar a violência urbana. Ao contrário, ao invés de união para a melhoria da segurança pública, o que assistimos foi a imensa ampliação da segurança privada: a indústria da violência. Aliás, há uma estranha coincidência: quanto mais deteriorada a segurança pública, mais incrementada a segurança privada. Seria mesmo uma coincidência? A insensatez dos ricos, a incúria dos governantes e a omissão da sociedade agora estão em xeque. O problema passa a ser de toda uma nação que se aprisiona no espaço privado, pois o espaço público parece terra de ninguém. Será que somente a violência nos iguala? Certamente, não. Até porque, a violência com os pobres é muito mais intensa e perversa. Para todos os efeitos, juntemos nossas forças na construção de uma sociedade mais justa; afinal, a paz é fruto da justiça (Is, 32, 17). Somemos nossas vozes nos protestos por um país decente, mais justo e igualitário. 

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