Sobre o jogo de cena da prisão dos condenados da Ação Penal 470

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O julgamento da Ação Penal 470 entrará para a história do Brasil, não pelos seus méritos – porque não mudará a cultura política da corrupção no setor público -, mas pelas suas polêmicas, simbolismos e circunstâncias. Penso que o foco que é dado agora nas prisões dos condenados faz parte, em boa medida, de todo um jogo midiático que caracterizou esse julgamento. Para todos os efeitos, em relação ao poder econômico utilizado perversamente pelos partidos e por operadores políticos para compor o caixa dois de campanhas e de partidos, tomara que  os desdobramentos da Ação Penal 470 sinalizem, para os financiadores ocultos de campanhas eleitorais, uma possibilidade real de punição. Porque é preciso lembrar que  quando há corruptos, sempre há também corruptores. A corrupção é uma engrenagem que só funciona quando vários atores se associam. Políticos, empresários, construtoras, banqueiros, geralmente com a omissão e/ou conivência da Justiça e a cumplicidade da sociedade. É assim que funciona a corrupção na política. Não sejamos ingênuos de pensar que essa engrenagem será desmontada, magicamente, a partir de agora. Neste sentido, tenho certa ressalva quando observo uma sociedade que gosta de eleger bodes expiatórios para purgar as suas culpas. Nossa cultura política, bastante conivente com a corrupção, tem mostrado que não obstante todo o foco que foi dado a Ação Penal 470, os casos de corrupção continuam pululando todos os dias, envolvendo os partidos e os políticos. A cobertura dada pela mídia, como sabemos, também não pode servir de parâmetro para a formação de um juízo acerca do julgamento, porque existem muitos interesses por detrás dessa cobertura. Nossa sociedade, às vezes,  gosta de se deleitar com o jogo de cena que não muda a realidade de fato. Penso que se não houver uma reforma política que mude a lógica de financiamento das campanhas eleitorais no Brasil, os mensalões, envolvendo quase todos os partidos, nos vários níveis de governos, continuarão. E a punição de alguns não será suficiente para mudar a cultura política da ladroagem que campeia na política institucional dos partidos e dos governos, seja no financiamento das campanhas eleitorais, na distribuição de cargos públicos, nas composições de governos, formadas cada vez mais por amplas coalizões cujos interesses são poucos confessáveis.Por fim, a utilização de um recurso jurídico incomum, a chamada teoria do domínio do fato que, segundo muitos juristas, não poderia ser aplicada em alguns casos porque as provas eram insuficientes para a condenação de alguns dos réus, ainda será objeto de muitas polêmicas que, possivelmente, só serão superadas no curso da história, haja vista o alto grau de passionalidade que envolve quaisquer discussões no presente. 

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